sábado, novembro 01, 2008

(Come romãs, pequena; come romãs!)

A minha romãzeira sabe construir a fruta de que mais gosto (a seguir às cerejas e às palavras). Uma árvore pode ser generosa? Dar à luz o que lhe roubo pensando em mim?

Não. (Súbito e objectivo despertar.)
Não há metafísica nem metáfora a comandar-lhe os gestos.
Faz aquilo que o destino (e a genética) lhe ditaram. Sorte minha, na química desta que me coube em sorte, o açúcar pecaminoso e o vermelho tentador se insinuarem em abundância.

O segredo da fuga está em trincar cada bago de fogo imaginando coisas ausentes ou inexistentes reflectidas nele. Um bom exercício para certos sábados mais silenciosos. Já o segredo do ficar está em trincar a romã pensando em... trincar e saborear a romã. Um bom exercício para controlo e treino do pragmatismo em mentes dadas ao vício poético da fuga.

Se Fernando Pessoa tivesse pensado um bocadinho melhor, teria escolhido a romã e não o chocolate, quando se imaginou em exercício de contemplação e interpelação da pequena no meio da sua tabacaria...




Hoje hei-de desembrulhar pelo menos uma e comê-la como me dizes para fazer... com verdade, sem pensamento colado a sequer um bago que seja!

Apesar dos pesos, pesadelos e pesares, ainda sei como isso se faz.

Rói-te de inveja, FP.