quarta-feira, abril 05, 2006

A Crónica de Antero Afonso

Gosto do Correio da Educação.
Já faz parte das minhas semanas e não dispenso a leitura. Muitas vezes tive vontade de trazer até aqui palavras de lá... mas fui resistindo, porque é difícil a escolha e tudo se sucede a uma velocidade que prova o empenho de todos quanto trabalham há anos para o manter assim doce e afiado, forte e sensível.

Hoje não resisti. Nesta semana em que a avaliação paira sobre as nossas cabeças, a crónica de Antero Afonso insinuou-se e não houve volta a dar. Vou partilhá-la com a certeza de que os que não conhecem o Correio ficarão curiosos. Quem sabe se junte mais gente a este projecto aberto à voz dos professores, aberto à realidade docente do nosso e de outros países. Semanário que recomendo.




Correio da Educação nº 255 - 27 de Março 2006
CRIAPASA

Os culpados do costume
Antero Afonso

"Há quem defenda que os tempos vão mal para os professores. Eu acho que estão péssimos e, por isso, não vale a pena exagerar.
os alunos que durante o ano lectivo vão ser submetidos a avaliação externa, de acordo com os novos programas, vão conhecer uma experiência nova. Nalguns casos há provas modelo dos exames a realizar, noutros casos não existem, o que é mau, e, nalguns outros, há exemplos de perguntas tipo que era melhor que não houvesse.
Os professores responsáveis pela formação destes alunos andam aflitos.
O Ministério da Educação, neste contexto, cumpriu a sua obrigação, como vai sendo hábito: mal, mas com boas intenções.
Vejamos, a título de exemplo, o exame nacional de Economia A. O Ministério da Educação elaborou um conjunto de perguntas tipo, às quais associou uma grelha com os respectivos critérios de correcção.
Suponham, os meus leitores menos versados nestas artes, o seguinte exemplo.
Enunciado: Os filhos do Sr. António foram trabalhar para a Holanda e enviaram para o Pai 5000 euros; Os filhos do Sr. Smith vieram trabalhar para Portugal e enviaram para o pai 3800 euros.
Pergunta: Qual dos dois senhores - António ou Smith - tem mais filhos?
Resposta esperada: Não sei, porque os dados referem-se a euros movimentados e a pergunta é sobre o número de pessoas..
Surpresa: Para o ME o número de filhos do Sr. António é superior aos do Sr. Smith, porque enviaram mais euros para Portugal do que os filhos deste enviaram para Inglaterra! [Pergunta 8 da Inf. 05(11)/05]
Os critérios de correcção fornecidos pelo ME fazem esta confusão e dizem aos alunos que devem responder que há mais pessoas, quando há mais dinheiro. Em Economia dizemos que o ME confunde fluxos reais (pessoas) com fluxos monetários (dinheiro).
Não creio que alguém duvide que a prova foi elaborada com a melhor das intenções, mas o meu problema é outro: como vou explicar aos meus alunos que aquilo que o ME lhe diz que respondam não tem pés nem cabeça? O ME conduz os alunos para um erro tremendo, mas sempre na melhor das intenções.
Num outro exemplo, da mesma prova, pede-se aos alunos para justificarem a evolução da taxa de desemprego, num determinado período. Segundo os critérios, os alunos devem consultar um quadro e dizer que o desemprego subiu porque passou de 3,9% para 5,1% (sic) e, mais adiante, devem dizer que a taxa de desemprego cresceu porque o emprego também cresceu (ainda que a ritmo decrescente). [Pergunta nº1 do II Grupo da mesma informação]
A minha amiga Isabel, que é uma professora obcecada com o rigor, dizia-me que há uma diferença entre um carro que anda cada vez mais devagar, e um carro que faz marcha-atrás, mas que, para o ME, isso parece ser a mesma coisa!
Qualquer professor que se arrisque a assinalar estes, ou outros, erros da prova, corre o risco de ser acusado de conservador e de estar a fazer marcha-atrás (não deixem passar esta subtileza) em relação à escola do futuro. O importante para o ME foi ter feito a prova. Os erros são meros acidentes de percurso.
Em geral, a política do ME tem sido caracterizada por esta determinação, bem intencionada, em promover um conjunto de acções, sem cuidar do erro, que é tido por um elemento estruturante da decisão. Por isso, quem assinala o erro é acusado de não concordar com o que é estrutural, e de fazer parte dos resistentes à mudança, dos conservadores. Aqui reside o segundo erro do ME: vê inimigos onde eles não existem e cria inimigos onde podia ter aliados.
A pressa com que as alterações têm vindo a ser produzidas (equivalências para a docência, formações tecnológicas, aulas a tempo inteiro, aulas de substituição, etc.) podem corresponder aos anseios da população portuguesa em geral - o que é legítimo - mas, esta pressa está associada a um conjunto tremendo de erros de percurso que vão produzir resultados piores do que aqueles que os actuais indicadores revelam. Dir-se-á então que o país fez marcha-atrás, julgando que estava a andar para a frente. Nessa altura, já serão outros os responsáveis pela marcha da educação.
Talvez isto possa justificar que a senhora ministra da Educação tenha ficado satisfeita com os 14 valores do professor Marcelo. Não é muito mas foi com boa intenção."

Qual dos dois senhores - António ou Smith - tem mais filhos?
Para além do que ficou dito por Antero, já estou a ver alguns alunos meus a acrescentar à discussão: Oh professora, onde é que se ganha mais? É na Holanda, não é? Então até pode ser só um filho a enviar aquele dinheiro todo e aqui em Portugal serem dois ou três... Oh professora, este desafio não tem solução pois não? Não faltam dados professora? Eles nem dizem quais são as profissões! O que é que tem uma coisa a ver com a outra?

Mania de põr os os miúdos a gostar de pensar.
Que belo serviço ando eu a prestar ao seu futuro de examinados?
Nenhum.
Mas continuarei a fazer tudo tal e qual tenho feito em nome do seu futuro de cidadãos.
(Pensamento crítico: a competência mais preciosa que a escola devia desenvolver... e a mais temida por quem acha que deve decidir destinos pelos outros. Talvez por isso... Ou talvez sejam mesmos erros. Tudo com boa intenção!)

11 comentários:

Teresa Lopes disse...

Uma História Verdadeira ou A Parábola da Galinha

Contava uma minha amiga que,certo dia, indo deitar restou de comida às suas galinhas, observou a seguinte cena:
Era esparguete e eis se não quando, uma das galinhas sustém no bico um pedacito, erguendo a sua cabecita sobre a restante bicharada. As outras tentam tirar-lho e desenrola-se uma cena pelo galinheiro fora com uma galinha a correr, com um fio de esparguete no bico, com naão sei quantas mais correndo atrás dela.
Na pia da comida jaziam centenas de fios de esparguete...

Moral da história: Há ministérios que parecem galinheiros.

Herr Macintosh disse...

A primeira coisa em que pensei quando li a pergunta dos euros foi que alguém no Ministério da Educação tinha decidido fazer uma daquelas perguntas em que se espera que o aluno, depois de analisar os dados, diga que o problema não tem solução (como aconteceu recentemente nas entrevistas que a Microsoft fez em Portugal para escolher alguns estudantes para irem estagiar num centro da empresa). Mas quando li a resposta considerada certa voltei, rapidamente, à realidade. Isto é demasiado absurdo.
Decididamente, o Ministério da Educação não consegue aprender, e isso é grave. Um organismo que tem por função orientar o ensino nacional tem, obrigatoriamente, de ter gente que tenha conhecimento do que está a orientar. Infelizmente, a posição autista do ME impede-o de ver para além do campo limitado da sua ignorância. Os autores desta palhaçada provavelmente nem sequer serão questionados sobre tão absurdo (e errado) exemplo. A vida continuará no mundo do ME sem sobressaltos de maior. E se alguém do ME ler o artigo ou este blog não conseguirá compreender o porquê de tanto alvoroço, o que servirá para provar que existe um forte campo de distorção da realidade lá para os lados da 5 de Outubro.
Termino com uma frase de Steve Jobs, o patrão da Apple, que um dia destes enviei à 3za. A inovação não tem nada a ver com a quantidade de dinheiro que se investe. (...) Tem tudo a ver com as pessoas que se têm, como são lideradas, e com a compreensão que temos dos problemas. Entrevista publicada na revista Fortune de 9 de Novembro de 1998.

Teresa Lopes disse...

Peço desculpa pelas duas falhas, mas estusiasmei-me com a parábola: corrijo "restos" e "não".
Se trabalhasse num ministério diria que o erro não foi meu, mas do teclado.

3za disse...

Teresa, já me fizeste rir :D (quem me visse aqui ao PC a rir sozinha pensaria... passou-se!)
E, tu, meu caro Herr... que dizer?
"Tem tudo a ver com as pessoas que se têm, como são lideradas, e com a compreensão que temos dos problemas." Parece tão simples...

Miguel Pinto disse...

Mas que chatice… que desplante!
Assin Milu

Pois é… este professorado não devia estar tão atento…

3za disse...

Haja alguém que esteja atento...

Herr Macintosh disse...

Pois é… este professorado não devia estar tão atento…
Surgiu-me entretanto uma ideia perturbadora: será que este exemplo foi colocado de propósito para ver se os professores estavam atentos? Estaremos a ser observados? A verdade estará, realmente, out there?

3za disse...

Oh Herr, não lhes dês boas ideias para se poderem desculpar depois... O que vale é que está aqui no fundo e ninguém vê... eles ficam-se por medidas "superficiais"...

Tit disse...

Quantas vezes não sabemos de casos de alunos que são prejudicados nos seus resultados escolares devido ao seu excelente sentido crítico... Simplesmente proque não os deixam "ser" na sala de aula... Simplesmente porque "não dá geito" que estejam sempre a pôr em causa e a dificultar o cumprimento de mapas rígidos de planificações...

[...é bem mais fácil exercer o autoritarismo em seres acríticos, e se não educarmos hoje os alunos numa educação crítica os futuros novos professores serão muito mais fáceis "de domar" - será que isto não passará pela cabeça da Milu?...náaaaa... eu e as minhas ideias estapafúrdias... :P]

3za disse...

E não é que já me tinha ocorrido?
Povo muito crítico não se deixa enrolar pelo político...

Teresa Lopes disse...

Ainda bem, Teresa, que já tinhas pensado nisso. Espero que mais outros também o tenham feito.
Lembras Sophia?
"Perdoai-lhes, Senhor,
Porque eles SABEM o que fazem."