quinta-feira, abril 06, 2006

Avaliar por competências para verificar o quê?

Um livro que se consome rápido com algumas ideias que ajudam.
Não me cheira a "eduquês"... mas o meu faro é pouco apurado.
Acho que para outros o será declaradamente, mas não quero saber. Quando um livro me ajuda, ajuda-me e pronto. Não há grande metafísica no fenómeno. Basta olhar para a quantidade de "papelinhos" que colo "naqueles" livros a que regresso vezes sem conta... (Quando estava a digitalizar a capa, não resisti a mostrar-vos o estado em que está este...)

Escolhi um excerto sobre... adivinhem lá! A avaliação, pois então!




"(...) A avaliação de competências não é, pois, um processo em si mesmo distinto da avaliação em geral. A dificuldade que agora se torna mais visível resulta do facto de, na avaliação escolar, haver um conjunto de procedimentos sobretudo “classificativos” instalados na cultura, que deixam muito na sombra a efectiva avaliação com todo o trabalho de exigência, regulação permanente e articulação de procedimentos que ela exige. A visibilidade das competências no discurso curricular e no campo das políticas internacionais de educação e de trabalho não irá permitir, a médio prazo, que o modelo de funcionamento da escola se mantenha nas suas rotinas antiquíssimas e poderosas, que tendemos a olhar como “naturais”.(...) Avaliar competências vai obrigar a focar a avaliação naquilo que o nosso ensino conseguiu ou não. Como sempre se deveria ter feito... Não se avalia uma competência listando perguntas ou pedindo exercícios mais ou menos mecânicos que, supostamente, nos indicam se o aluno “sabe a matéria”. O esforço começa, como já referimos, na adequada clarificação dos objectivos em termos da(s) competência(s) pretendida(s), e no desenvolvimento do trabalho das aulas de modo a orientar nesse sentido. Não se abandona nenhum conteúdo, mas têm todos de ser sempre repensados face ao que pretendemos que se faça com eles e através deles. Assim, aquilo que constitui objecto de ensino e de avaliação num currículo orientado para competências, não se organiza em função de sequências temáticas, mas em função da competência pretendida. (...) Em que reside a especificidade? Não na especial dificuldade de conceber situações de avaliação deste tipo - o que até pode ser muito simples - mas em focar a actividade (quer de ensino, quer de avaliação) na construção de meios para verificação de como é que o aprendente “se mexe” face ao que se pretendia que ficasse apto a saber fazer, relacionar, usar, mobilizar… Isso implica pensar os porquês e para quês de cada actividade, ou de cada elemento de avaliação, em função da concretização da competência pretendida com exemplos da sua utilização eficaz. Implica perguntarmo-nos: O que é que ele/ela vai demonstrar ao fazer isto que estou a pedir? De que outras formas pode ser também demonstrada esta mesma competência nesta tarefa? E outras tarefas, que não sejam perguntas?(…) Não se trata, pois, de uma complexidade maior, mas de uma análise mais fina e permanente do que fazemos e para quê - Que pretendo eu que os meus alunos aprendam, de que quero que fiquem capazes, ao organizar este trabalho, esta tarefa? E como é que este instrumento ou tarefa de avaliação me pode mostrar que ficaram realmente capazes? (…) Implica, sim, romper com uma lógica de anos, que nos leva a conceber aulas como momentos organizados em função de “percorrer” um conteúdo (vulgo, dar uma matéria…) que daí a uns tempos se perguntará num exercício, teste ou a dita ficha de avaliação (será que avalia mesmo?…) para, em vez de “dar aulas” nos tornarmos “construtores de aulas”, enquanto tempos e espaços de pensar sobre, de compreender realidades, de transformar as informações em conhecimento consistente, de ampliar o conhecimento com que se começou, de realizar tarefas exigentes que, ao envolverem novos conteúdos, ensinem e “obriguem” a pensar, a compreender, a usar... "

Maria do Céu Roldão (2003)
Gestão do Currículo e Avaliação de Competências
As questões dos professores
Ed. Presença

Ora digam-me lá se este modelo de extrema exigência para o trabalho do professor é compatível com os "entreténs" que nos foram atribuídos este ano? Confesso que dedicava muito da minha componente individual a estas leituras, à reflexão, à procura de soluções de operacionalização para caminhar no sentido com sentido. É o primeiro ano da minha vida em que começam a ser raros os momentos de leitura e progressão, para além da preparação de aulas e do cumprimento das tarefas e reuniões e papéis inerentes a todos os meus cargos (não são coisa pouca). Não, não estou a lamentar-me. Estou a constatar uma evidência que me tem tolhido os movimentos e me tem impedido de crescer e ando a pensar em formas de vencer isto antes que isto me vença a mim...

6 comentários:

Prof. Teresa disse...

Obrigado pelas referências e citações sempre úteis.
Um beijinho e votos de Boa Páscoa!

Rui disse...

Absolutamente, só pergunto é uma coisa: a Maria do Céu Roldão também sabe disso, e o João Pedro da Ponte e tantos outros sabem perfeitamente dessa incompatibilidade. Eu pergunto: onde é que eles estão agora nesta hora de extrema dificuldade para os professores? Porque é que nos deixaram sozinhos?
É isto, Teresa: a força das ideias também se mede pela coragem de quem as defende vir para a rua lutar por elas. Repito: onde é que todos esses se encontram agora? Não os oiço em lado nenhum.
Desculpa, Teresa, pela violência, mas eu só tenho a dizer uma coisa sobre eles: que náusea!

3za disse...

Obrigada Teresa!Uma boa Páscoa para ti também!
E, Rui, devem estar por aí um bocadinho encolhidos com receio de ser acusados de serem eduqueses se saltarem em nossa defesa explicando a"incompatibilidade da coisa". Não peças desculpa. Estamos todos em ponto de rebuçado e, realmente, tens razão. Seria bom que as pessoas que até têm fornecido boas pistas explicassem por que razão o presente modelo destrói a única hipótese que o sistema teria de se erguer de forma "excelente". O que posso dizer mais? Os que não faziam continuarão sem fazer... os que sempre fizeram... gradualmente deixarão de fazer... este é realmente o risco que se corre. E acreditar na força das ideias produzidas deveria ser suficiente para vir em sua defesa sem medo de críticas...

Miguel Pinto disse...

Entrei sem disposição comentar… há dias assim. Depois desta troca de palavras que tive o prazer de ler, só me apetece dizer que é reconfortante saber que este barco leva muita gente. Um abraço para o Rui e para as Teresas. :)

Arte por um Canudo 2 disse...

O mal é estarmos calados e aceitando tudo que nos impõem. Até julgava que estava sózinho.Não gosto do lamento mas prece-me que isto está a extravasar os limites.Esses "eduqueses" onde estão? Esqueceram as filosofias que traziam!Desapareceram com a escola que preconizavam deixando indefesos aqueles que até acreditavam na mudança.Agora só resta este bombardeamento de papeis a que chamam legislação.Competências onde estão?

3za disse...

Obrigada por terem vindo... Gostava de poder agradecer um dia aos ditos senhores dizendo o mesmo: obrigada por terem vindo... ajudar-nos com convicção na luta.
Gostava.