quinta-feira, junho 19, 2008

Preciso...




Às vezes preciso de viajar no tempo.
Fazê-lo para trás fingindo que é possível enganá-lo.

Fazê-lo para a frente fazendo de conta que há um outro futuro à espera.
A música ajuda. O silêncio também.
Um certo (muito) cansaço de vozes estridentes a apregoar sucessos.
Um certo (muito) cansaço de vozes pior que caladas fazendo coro com o inenarrável discurso que nos vem condenando a um casulo de desinteligência.
Um pouco apreensiva com a minha própria dormência. Esta minha paralisia para o que não é conhecimento e viagem em direcção ao melhor de nós. Para o que não é razão. Para o que não é essencial. Para o absurdo instalado.
Apreensiva com esta minha fuga à realidade em jeito de convicção de que é o sonho a coisa mais real que possuo no peito neste instante. A única que me prende ao dever de me crescer por dentro e por fora, por mim, por eles, para que o desalento não se instale como placa de gordura em artéria e me morra antes do tempo. Sem retorno.
É a minha forma de combater. Coisa pouca, coisa de nada... eu sei.
Fechar-me no quarto a fingir de princesa com amigos invisíveis que falam alto e me afastam das vozes de bruxas e monstros para que seja possível acreditar na redenção do mundo.
Infantil esta minha convicção de que a luz always finds a way... como a vida.
E, ainda assim, uma treva que já dura há mais tempo do que devia.
Sim... esse nevoeiro.
...

Quem pode ser excelente?

Este ano, por lapso (o cansaço opera os seus desvarios), um dia saí da escola cedo demais... quando me apercebi do erro, regressei.
15 minutos de atraso. Falta, claro (note-se que nunca faltei, estou sempre a horas na aula... com frequência fico depois do toque mais tempo com os alunos).
Professor de substituição dentro da aula. Pedi que saísse. Não assinei livro, claro. Mas dei a aula toda e ainda fiquei mais tempo a seguir para compensar.
Falta.
100% de assiduidade? Não.
Provavelmente 99,9%...

Exceptuam-se as faltas dadas ao abrigo do célebre despacho ministerial que permite aos titulares avaliadores faltar às suas aulas para assistirem às dos colegas que vão avaliar:

9 — O presidente do conselho executivo ou o director assegura a organização, de acordo com os recursos humanos do agrupamento, incluindo os que exercem funções nos órgãos de administração e gestão, sempre que necessário, da substituição dos docentes nas funções lectivas quando se encontram em observação de aulas, por professores da respectiva disciplina ou grupo de recrutamento, por forma a que não se verifique qualquer prejuízo para os alunos e se mantenha em funcionamento a unidade do grupo/turma.

Estes são os perfis em discussão cá na casa, juntamente com mais uma míriade de impressos que para o ano começam a ser aplicados a bem da melhoria do ensino e do sucesso dos alunos e da escola, espero. Ou então... isto serve exactamente para quê? Gastar tempo precioso que já não há para trabalhar realmente bem com os alunos?

Em vez de ir à reunião... tive de ir para a Faculdade iniciar a apresentação do meu trabalho.
Fui informada este ano de que, embora possa justificar estas faltas como trabalhadora-estudante, serei penalizada por elas.
Quem faz mestrados não pode ser excelente. Mesmo que eles sejam investigação-acção em sala de aula, TIC, Matemática e não só (tanta coisa prioritária em tantos despachos e propagandas), a bem dos alunos e do ensino... mesmo que sejam sementes de inovação (e eu já tenha andado a fazer acções de divulgação e formação junto de professores desta escola e de outras), mesmo que no ECD seja dever e direito avançar... mesmo que...
Um mestrado e 15 minutos. Sentença dada.
Excelente? Temos pena. Já não pode ser...



Os excelentes só podem ser obtidos com contas de merceeiro... contas de restaurante em toalha de papel... Os Muito Bons também. Estou bem mais descansada. A partir de agora é que a qualidade do ensino vai melhorar. Os próximos resultados em provas de aferição voltarão a subir e a causa científica será... o novo regime de avaliação de professores.

Em nome de que rigor?

Esse nevoeiro, sim. Areia nos olhos.

3 comentários:

Avó Pirueta disse...

Teresa do Lindo Nome, conseguiste uma coisa muito difícil: deixaste-me sem voz! Sem som, sem palavras, sem ideias. Apenas com uma profunda mudez magoada. António Nobre recordou que tínhamos sido um país de marinheiros. Napoleão enganou-se: não são os ingleses, somos nós que somos um país de merceeiros. De lápis atrás da orelha e a registar contas feitas a traço nas paredes.
Nisto estamos transformados? Ainda não. Não podemos deixar acontecer. Um beijo triste da Avó Pirueta

Anónimo disse...

Não há mal que sempre dure!
Ás vezes uma poesia ajuda a animar ou (arribar)

Cantico Negro - José Régio

"Vem por aqui" - dizem alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem : "Vem por aqui"!
Eu olho-os com os olhos laços,
(há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha Mãe.

Não, Não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus própros passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí ...

Se vim ao mundo , foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Teresa Martinho Marques disse...

COntinuaremos a tentar... sempre...
Olhem... hoje fui de missão para os lados dos Cabaninhas... Assim luto contra a escuridão. Ai que tarde luminosa a minha!
Verão...
Assim se fortalecem os músculos para (com)bater (n)o Adamastor...
Beijos e obrigada pelos mimos e companhia nestas horas meio tontas de delírios merceeiros...