segunda-feira, janeiro 30, 2006

À procura de culpados...


João Pedro da Ponte, em 1994, no seu artigo Matemática: Uma disciplina condenada ao insucesso? NOESIS, 32, 24-26, dizia:

"(...) Para os professores, as causas do insucesso dos seus alunos são frequentemente a sua “má preparação” em anos anteriores. Por um raciocínio recorrente chega-se rapidamente ao 1º ciclo, daí às insuficiências da educação pré-escolar... Apontam igualmente o facto de muitas famílias terem um nível socio-económico e cultural muito baixo — ou terem um nível aceitável mas não incentivarem suficientemente os alunos. Os professores indicam que os alunos não se esforçam, não prestam atenção nas aulas nem estudam em casa. Contestam também que os currículos são excessivamente longos e que a necessidade do seu cumprimento obriga a deixar para trás os alunos mais “lentos”. Por vezes, reconhecem que há certas matérias mais “áridas”. Responsabilizam assim os alunos, as famílias, os professores dos anos anteriores, os currículos e as características próprias da disciplina.
Para os alunos, a principal razão do insucesso na discipina de Matemática resulta desta ser extremamente difícil de compreender. No seu entender, os professores não a explicam muito bem nem a tornam interessante. Não percebem para que serve nem porque são obrigados a estudá-la. Alguns alunos interiorizam mesmo desde cedo uma auto-imagem de incapacidade em relação à disciplina. Dum modo geral, culpam-se a si próprios, aos professores, ou às características específicas da Matemática.
Para os pais e para a opinião pública em geral, a responsabilidade está nos professores que não ensinam convenientemente — ou por falta de preparação ou porque não assumem o necessário nível de exigência — e nos alunos que não se esforçam o suficiente. Algumas vezes refere-se o peso de factores socio-culturais. Mas todos reconhecem que a Matemática é uma disciplina difícil e que a sua aprendizagem tem trazido grandes dificuldades em todas as gerações.
As causas apontadas andam todas à volta dos mesmos pontos, muito embora ênfases diferentes: a disciplina, o currículo, o professor, o aluno, razões de ordem social e cultural. Por vezes as causas aparecem misturadas com sintomas — com aspectos que são reveladores de insucesso mas que não o explicam só por si. Em todos os casos as características da disciplina estão sempre presentes. E é curioso verificar que os alunos, como elo fraco do sistema, são os únicos que aparecem dispostos a aceitar uma quota parte da responsabilidade. (...)"
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/jponte/docs-pt/94-Ponte(NOESIS).rtf

Em 1982, na edição revista do seu livro Dificuldades em Aprender, John Holt dizia no prefácio:

"(...) recentemente, num congresso sobre Educação, realizado em Nova Iorque, ouvi o Dr Ronald Edmonds, da Harvard Graduate School of Education, falar sobre uma pesquisa importante que tinha feito, a pedido das escolas públicas da cidade de NY. Ele e os seus colegas tentaram descobrir o que torna algumas escolas "eficazes", e por eficaz entende-se uma escola na qual a percentagem de crianças pobres que aprendem, em cada ano, parte satisfatória da matéria - o que lhes permite transitar de ano - é a mesma que a proporção correspondente de crianças ricas ou da classe média.
A primeira coisa que vale a pena notar é que, na totalidade da região nordeste dos Estados Unidos, os investigadores apenas foram capazes de detectar cinquenta e cinco escolas que se enquadravam nesta definição muito modesta de "eficaz".
Os investigadores, então, estudaram essas escolas para saberem quais as qualidades que elas tinham em comum. Das cinco que descobriram, duas depararam-se-me como cruciais: (1) se os alunos não aprendiam, as escolas não os recriminavam, nem a eles, nem às suas famílias, nem à sua classe social, nem aos seus vizinhos, nem ao seu comportamento, nem ao seu sistema nervoso, nem ao que quer que fosse. Não procuravam justificações. Assumiam completa responsabilidade pelos bons ou maus resultados do seu trabalho; (2) quando alguma coisa que punham em prática nas aulas não dava resultado, paravam imediatamente e tentavam fazer outra coisa. Reprovavam métodos fracassados, e não crianças. (...)"

No Correio da Educação nº245 (16 Janeiro de 2006), Ed. ASA , tendo por base o estudo

Inside the Black Box of High-Performing High-Poverty Schools
http://www.prichardcommittee.org/Ford%20Study/FordReportJE.pdf

diz-se que:

"(...) As escolas de sucesso destacavam-se nomeadamente em:

  • crenças de que todos os alunos poderiam ter bons resultados;
  • expectativas elevadas;
  • tomadas de decisão participada;
  • os professores aceitarem a sua parte de culpa no insucesso dos alunos;
  • distribuição estratégica do pessoal;
  • comunicação regular entre pais e professores;
  • corpo docente empenhado;
  • dedicação à diversidade e justiça.

Estas escolas apresentavam também substancial vantagem em quatro itens: adequação entre currículo e avaliação; monitorização e avaliação sistemática do percurso dos alunos; reforço de um núcleo de saberes académicos para todos os alunos; avaliação e instrução diversificadas que tentam corresponder a tipos diferentes de aprendizagem. Ao nível dos professores, estes estabelecimentos também apresentavam resultados superiores relativamente ao desenvolvimento profissional, da ligação ao sucesso dos alunos e atenção às necessidades de liderança."

E... ?

Será possível construir de dentro para fora a autonomia que permita a mudança de cenários em cada escola, de forma concertada, com desígnio, enquanto se trabalha de forma participada para que se vão, também, resolvendo os problemas de fora para dentro?

Encontraremos dentro de nós essa força combinada para desenhar soluções e pô-las em prática?

Não me canso de repetir a mim própria (a prova está aí ao lado direito, onde deixei a frase para me ir lembrando, mesmo nos momentos em que duvido):

Se não fazes parte da solução, fazes parte do problema.

Tenho esperança de, assim, evitar colocar-me sempre no papel de vítima e assumir, com regularidade, o papel da culpada. É nesses momentos que o mundo pula e avança, como bola colorida, entre as mãos de uma criança.


9 comentários:

Herr Macintosh disse...

Mais provocações? E logo pela manhã! De manhã é que se começa o dia... Bom, aqui vai mais uma acha, uma citação de um autor de que já me ouviste falar e de gosto muito, Richard Riding, traduzido à pressa:
Uma forma de melhorar significativamente os resultados do ensino e, consequentemente, a eficácia das aprendizagens dos alunos, é melhorando as estratégias de ensino utilizadas pelos professores e as estratégias de aprendizagem utilizadas pelos alunos [destaque meu]. Isto terá o duplo efeito de melhorar a satisfação dos professores no seu trabalho e a auto-estima dos alunos.Richard Riding, School Learning and Cognitive Style, David Fulton Publisher, Londres, 2003
Isto aplica-se a qualquer disciplina. Em relação à procura dos culpados isso faz parte da tradição do bode expiatório. Procuramos o culpado sem pararmos para analisar o que correu mal.

3za disse...

Saúdo a tua presença (e tudo o que trazes contigo e enriquece este espaço)... que me está a parecer poder tornar-se, como diria, "habitual"? Regressamos às saudosas tertúlias da Luisinha? As que nos mantiveram o espírito para cima no meio de tanta dificuldade? Vê lá se consegues animar a Cris e a Zé a deixarem-se enredar na Teia, numa espécie de regresso ao passado mas com os olhos postos no futuro da Educação... Era uma forma de matar saudades e combater a tristeza e o isolamento... Juntos podemos tanto. Quando será que os professores vão perceber isso? Que a Escola não é uma, aquela em que estamos colocados, mas sim A Escola (de todos nós)? Que está também nas nossas mãos "alguma" coisa?

Teresa Lopes disse...

Não podia estar mais de acordo convosco. Só que, para actuarmos dessa maneira, onde vamos buscar energia? Aos resultados que iremos obter dos nossos alunos, claro, mas também a um sistema organizativo que reconheça o nosso trabalho. O reconhecimento faz parte da nossa valorização e contribui altamente para elevar a nossa auto-estima. E isso, nós temos?

Herr Macintosh disse...

O reconhecimento faz parte da nossa valorização e contribui altamente para elevar a nossa auto-estima. E isso, nós temos?
Não.

Tit disse...

Todos nós já ouvimos falar dos estímulos interiores e exteriores. Naturalmente que os exteriores são importantes, como sejam, neste caso, o reconhecimento do nosso trabalho pelo sistema educativo. No entanto, há muitos outros, que estão mais perto de nós e que nos dizem "Olá stora"; "Ah!... já percebi!"; "Isto afinal é giro!"; "Pode explicar outra vez?"...

Depois há ainda os estímulos interiores. Os mais importantes. Que nos fazem andar para a frente na certeza de que, quanto mais nos envolvermos na tal procura da solução, mais sentido tem continuarmos a apostar no desafio da Educação. No desafio de, neste caso, fazer com que os alunos aprendam Matemática. Esses estímulos interiores são como uma bola de neve (e lá vem a neve outra vez...eheheh). Se deixarmos, eles vão rolando e crescendo. Mas se não os colocarmos a rolar acabam por derreter depressa...

[Claro que isto nem sempre é assim tão óbvio... muitas vezes sentimo-nos sozinhos. Mas esta coisa do entusiasmo felizmente é contagioso...!]

3za disse...

Bem... uma pessoa passa a tarde fora e a tertúlia lá vai aquecendo e caminhando... e, querem saber o melhor? Eu venho buscar alguma da energia aqui, outra, como diz a Tit, recolho-a junto dos alunos (grande parte) e outra, ainda, do sabor das coisas boas da vida e da forma interior como me disponho a fazê-lo (pois tenho sorte em poder fazê-lo sem grandes preocupações externas que me tolham). Claro que, como diz a Teresa, também gostaria muito de ter o reconhecimento de quem me tutela, para além dos pares e dos alunos... mas, até ver, tenho de me contentar com o que tenho... Nos momentos de maior desânimo tento agarrar-me a uma ideia apenas: os alunos não têm culpa... é preciso a todo o custo evitar que sejam eles a sofrer as piores consequências...
Às vezes... apetecia-me ser professora num espaço e tempo muito diferentes da escola que temos... às vezes... mas só posso tentar manter a energia suficiente para mudar o que está à minha/nossa volta. Nem sempre é fácil... mas alguns gestos são possíveis.

IC disse...

Pois a Matemática é realmente difícil para muitos alunos, mais difícil ainda pela ideia que já trazem e vão acumulando devido a insucessos, pela insegurança (a insegurança e baixa imagem da sua capacidade leva alguns a uma defesa natural - ligarem-lhe pouco)e por não terem ainda descoberto como colocarem/soltarem o raciocínio, que têm mas não usam, preocupados em buscar na memória a resolução do problema que lá não pode estar. Pouca auto-confiança e descoberta de como "colocar" o raciocínio(porque não basta o professor dizer, têm que perceber o que quer dizer com soltar simplesmente o raciocínio face a um problema) requer uma acção muito individualizada - cada um desses casos é um. E a atenção e acção certa para cada um por parte do professor é, para mim, o desafio mais difícil, porque eles são 25 em cada turma e também os "bons" alunos precisam de atenção diferente para poderem chegar onde podem e querem em turmas em que o professor é extremamente solicitado pelas dificuldades dos outros, quando estes são a maioria.
Acabo de ter este ano um caso que bem prova como essa atenção/acção certa individualizada pode transformar um aluno desmotivado e oscilante entre nível 2 e 3 num aluno, que é inteligente mas com um feitio difícil a esconder inseguranças, num aluno que está a candidatar-se ao nível 5 no final do seu 9º ano. Isto passou por uma coisa para que temos pouco tempo devido aos nossos horários e deles - espaços de conversas fora da aula, neste caso devido à percepção do que estava por trás desse feitio que referi. Tive que lhe dar 2 no final do ano passado e justificar em acta pois tinha tido antes antes 3, 3, mas das primeiras coisas que fiz este ano foi a tal conversa, e não era a 1ª, mas nesta consegui acertar nos pontos certos,e estabeleceu-se algo entre nós a seguir,e o V teve 100% no último teste do 1º Período (ultrapassando a minha aluna de 5). Isso foi o final de um processo e início de outro percurso(recebeu hoje teste cvom 93%).
Pedindo desculpa deste relato todo, o que quero dizer é que a relação dos alunos com a Matemática pode ser modificada, mas creio que nos é humanamente impossível consegui-lo com todos, porque eles são muitos para um professor só. A muitos, as dificuldades têm que serem tiradas individualmente, os estímulos têm que ser adequados a cada um, acertamos em cheio com uns, não conseguimos com outros - e sabemos que podíamos conseguir, pelo menos teoricamente podíamos, mesmo e apesar de, como é o meu caso, estar a recebê-los só no 8º ano. O drama das dificuldades e desistências na Matemática é que elas têm muito a ver com o domínio psicológico. Eu sei que trabalho muitíssimo com eles, mas sei também que me ficam bastantes sem dar o salto - às vezes muiiiitos, porque aquele nível 3 "baixinho" que conseguem é justo, não é benevolência caridosa, mas não é sucesso em termos daquelas competências gerais que importam (E que NÃO É SÓ na/pela disciplina de Mat que têm que ser desenvolvidas). Por um lado, não me sinto culpada; mas não deixo de me dizer todos os anos (apesar da falta de hábitos de esforço que vou denunciando cada vez mais nas novas gerações de alunos) que com este, aquele, aquele outro não consegui, isto é, falhei - EU falhei.
P.S. Andava a pensar escrever um post com a estória deste aluno V., mas é delicado, é um aluno do presente, por um acaso qualquer ele poderia ver-se descrito, e pelo seu modo de ser não arrisco apesar de que o post seria um elogio para ele.

Miguel Pinto disse...

Depois desta excelente conversa nem sei por onde começar. Quero crer que irei ao fundo do enigma. E como não quero ficar preso num fio da teia acrescento este pequeno exemplo verídico: hoje, tive o prazer de preencher um inquérito, distribuído pelo Conselho Executivo, que visava diagnosticar o clima de escola e um conjunto de problemas para reformar o nosso projecto educativo (singular… é uma piada ;)) Depois de reler a parte que dizia respeito ao nível de satisfação dos professores, sorrira. Embora as respostas indiciassem um certo mal-estar pela ausência de trabalho cooperativo, à última questão [Dá-me gosto trabalhar na escola] eu respondera afirmativamente.
Concordo com a tit e com a tese do entusiasmo contagiante. Já encontrei culpados para as minhas incoerências: A teia de cumplicidades!

3za disse...

Só um muito pouco para agradecer as vozes e para uma concordância indispensável com o caso relatado pela IC e pela reflexão que se lhe seguiu. Sinto exactamente o mesmo que tu. A minha "provocação" (se assim se pode chamar) dirige-se aos que não fazem um único gesto (infelizmente tenho conhecido vários)... De culpado e de louco todos nós temos um pouco... mas ao fazer os gestos possíveis (como o que relatas e muitos outros que não relatas) salva-se o que está ao alcance salvar (com os recursos de que dispomos). Milagres não acontecem só pela vontade e esforço. O que me assusta são os que têm o discurso da indiferença e são incapazes de um único gesto, de uma única tentativa. São esses os únicos que não se sentem a partilhar nenhuma culpa. Estou contigo: mesmo que saiba que vou fazendo o melhor que posso e sei, hoje, ao ver os testes, vou sentir que falhei, sempre que algo tenha escapado ao meu controlo, ao meu entusiasmo... porque são muitos, dizes bem... Depois de uma primeira tristeza, sei que vou, tal como tu, tal como muitos, felizmente, procurar descobrir como corrigir ainda o que esteja ao meu alcance corrigir... MAs, a certa altura o ano acaba e não é mais possível... fica-nos o ano seguinte, se tivermos a sorte de poder estar com o aluno novamente.

Teia de cumplicidades... pois... Miguel, poderei pedir emprestada esta bela metáfora para a usar num qualquer cantinho da minha humilde casinha no ciberespaço? Soa tão bem... sabe tão bem... (Acho que ouvi um sim, nem precisas de responder!)