terça-feira, janeiro 24, 2006

Escola (da) Vida - 1

Já sabem das metáforas da casa. Não estranharão. Hoje vou falar de Chinchilas.
De um casalito peludo que se instalou por aqui, no acaso de uma loja que se desfez e as deixou sem abrigo, a passar de mão em mão. Até chegar a nossa vez de as acolher... para sempre. Já traziam nome: João e Maria.
As Chinchilas reproduzem-se. Não muito. Cerca de duas vezes por ano, às vezes uma. Têm o tempo de gestação mais longo dos mamíferos roedores: cerca de 111 dias. Nascem já com dentes, pêlo farto, cheias de energia, prontas para conquistar o difícil mundo do seu habitat natural. Coisas da evolução.

www: Quinta dos roedores do Sapo

www: Coisas de Chinchilas

www: Crystal Chinchillas

www: Chinguide


Observar os progenitores com as crias, na garagem que se tornou o seu habitat (onde vivem em liberdade, por entre troncos, espaço amplo, e uma mesa de marcenaria, que tem no topo a larga gaiola sempre aberta e com caminhos preparados para que lá cheguem com facilidade) tornou-se numa fonte de reflexão sobre os processos de aprendizagem na Escola (da) Vida.

Vejamos então:

A Maria e o João precisam de ensinar às crias os percursos do habitat artificial, de forma a que percebam como chegar ao piso intermédio (lá encontram a banheira com a areia onde se rebolam para limpar o pêlo) e, depois, como aceder ao piso onde está a gaiola sempre aberta (com comida e água).
Fazem-no aproximando-se repetidas vezes da cria ou crias (com sons especiais) e indicando-lhes exactamente o que devem fazer, fazendo-o elas próprias, por pequenos passos, nunca explicando todo o percurso de uma só vez, mantendo-se à vista e regressando sempre, se a cria não percebeu o que era pretendido.

As "explicações" reduzem-se ao primitivo(?) e instintivo exemplo que o corpo pode dar, levando-as progressivamente a ganhar a confiança suficiente para ir vencendo cada etapa. O contacto, a proximidade são frequentes. Não há lições à distância.

As crias não aprendem todas o mesmo ao mesmo tempo. Casos há em que coexistem duas crias com capacidades de aprendizagem diferentes. Uma deixa-se atrasar, não encontra os caminhos com facilidade, a outra aprende rapidamente o que tem para fazer. Como não estou sempre presente, não sei como se atenuam as diferenças, mas sei que todas acabam por aprender tudo o que é preciso aprender, ao fim do tempo certo, e todas ficarão aptas a abandonar o ninho na altura devida (quanto mais crias, mais tempo necessitam de ficar com os pais - a atenção dividida tem os seus custos).

Suspeito que a paciência dos progenitores, o desejo de "fazer aprender" (mais do que ensinar) fará a diferença necessária entre a vida e a morte no habitat natural, e que as desigualdades vão acabando por desaparecer devido ao empenho instintivo dos progenitores que desejam assegurar, a todo o custo, a sobrevivência da espécie. Ou talvez porque se trata aqui de aprendizagens significativas, com utilidade visível. Porque a proximidade e persistência tornam o ambiente securizante e estimulante, permitindo ultrapassar os obstáculos sem receio. Será?

Tudo em nome da sobrevivência da espécie. (Da sociedade que integram (?))

(Até que o Homem engane as probabilidades, as cace até à exaustão e as transforme numa espécie em vias de extinção no habitat original... o que aconteceu de facto. O Homem... esse ser estranho que não encara a educação/formação como a única salvação do futuro comum. Do seu futuro.)

(continua)

11 comentários:

Miguel Pinto disse...

Enquanto aguardo pela continuação…acrescento duas breves notas:
"O contacto, a proximidade são frequentes. Não há lições à distância..."
1.O ofício de professor correrá o risco de extinção? Hummm… não me parece.
“As crias não aprendem todas o mesmo ao mesmo tempo”
2.Os exames nacionais servem para isto. Encontrar as crias que se vestem de aluno-tipo [é uma pequena provocação ;)]

3za disse...

...Outro problema pertinente é o de saber se, admitindo uma qualquer função para os exames nacionais (que não seja a de identificar a cria-tipo), quem faz as perguntas dos ditos, faz realmente as perguntas que deveriam ser feitas para evitar que isso aconteça... casos há em que parece que não (a avaliar pelo que se tem visto em algumas áreas). Também seria interessante questionarmo-nos sobre o que fica por avaliar nesses exames. Sei pouco sobre o assunto, mas penso que há países que ultrapassaram em parte esta lógica "deixando os alunos entrar" e fazendo a selecção a posteriori, tendo por base o trabalho desenvolvido, proposto pela instituição, e o conhecimento real dos alunos... talvez para evitar o tal aluno-tipo e poder chamar as chinchilas pelos seus nomes... (Ajudem-me com algum exemplo, please! Cara-Metade, era na Suíça? De que falava o Yuri sobre a necessidade de treinar os alunos já dentro da instituição, com projectos, por falta de confiança nas avaliações do sistema? Se tiveres um bocadinho entre experiências...)

Cara Metade disse...

O problema:
a maioria dos alunos nao planeia a sua vida a longo prazo (os pais e professores nao lhes ensinam o real significado da palavra e muito menos a po-la em pratica) e, portanto, quando chegam a altura de entrar para uma faculdade, das duas uma, ou teem notas para escolher o curso que gostam ou acabam a fazer o que nao gostam. A maioria cai neste ultimo caso e, portanto, e facil adivinhar o estilo da sua carreira universitaria.

As alternativas:
A meu ver, a solucao mais justa neste contexto de nao planeamento atempado do futuro, seria de deixar entrar os alunos nos cursos que eles escolhessem e, uma vez la, teriam que provar que mereciam la continuar. Chumbar a uma disciplina significaria passar a pagar uma propina real para continuar, ou entao sair. O Estado, que nao passa do conjunto de todos nos e respectivos impostos, nao pode suportar mais do que isto.

O que fazer em casa e nas escolas:
ensinar aos alunos, e po-los a praticar, desde tenra idade, o planeamento da nossa vida diaria e futura. Ensinar-lhes prospectiva estrategica. Ensinar-lhes as estatisticas da vida e do comportamento. Por fim, ensina-los atraves da realizacao de projectos. Nao me parece haver alternativa ao trabalho de projecto como forma de optimizar o ganho de competencias e desempenho, e de manter os alunos num nivel elevado de satisfacao e realizacao. A escola actual e um lugar de grande frustracao para os nossos jovens porque la eles raramente se sentem realizados e estimulados.

Deixo-vos este desafio: o que e planear?

Cara Metade (ainda sem acentos nem cedilhas)

3za disse...

Como sempre... a realidade em acção. Vale-te também a experiência de vida e a de, com frequência, estares em contacto com outros estilos e formas de encarar os desígnios da educação...Podíamos tentar, com esta nossa mania de copiar desajustadamente os outros, copiar pelo menos o melhor e o que fizesse algum sentido humano e orçamental...
Obrigada!Bj.

Miguel Pinto disse...

Cara metade
“A meu ver, a solucao mais justa neste contexto de nao planeamento atempado do futuro, seria de deixar entrar os alunos nos cursos que eles escolhessem e, uma vez la, teriam que provar que mereciam la continuar."
Parece-me bem mas tenho muitas dúvidas sobre a exequibilidade da alternativa. Vejamos o caso da paranóia em torno do curso de medicina: a perspectiva de emprego garantido ligado ao elevado estatuto social conduziria às universidades um fluxo de alunos incomportável. Como é que se resolveria o problema? O ensino à distância seria uma alternativa?...

“Nao me parece haver alternativa ao trabalho de projecto como forma de optimizar o ganho de competencias e desempenho, e de manter os alunos num nivel elevado de satisfacao e realizacao.”
O trabalho de projecto não é a panaceia para o problema da motivação e realização pessoal mas ajuda muito. Passo 12 horas semanais com uma turma de um curso tecnológico do 11º ano e a matriz organizacional deste curso assenta no desenvolvimento de projectos de trabalho (individuais e de grupo). Estes projectos concretizam actividades de referência que sugerem a expressão de competências e a aquisição de conhecimentos. Será que a minha concordância com a metodologia de trabalho de projecto resulta do facto de leccionar duas disciplinas não sujeitas a exame nacional e, por via disso, me sentir mais livre para interpretar o currículo e menos pressionado para despachar a matéria de ensino? Não sei…

Teresa
O que fica por avaliar nos exames?
Se considerarmos uma competência como um saber fazer em acção, que tipo de competências podem ser avaliadas num exame nacional?...

elisabete disse...

Que lições de vida, querida 3za, sobretudo em forma de chinchila :o)

Como te adoro, amiga!

3za disse...

Fica por avaliar muito (tudo) o que é essencial. Embora seja possível avaliar determinadas competências matemáticas (de forma indirecta) com questões abertas e que obrigam os alunos a tomadas de decisão e fundamentação (o PISA socorre-se deste tipo de questões... não é por acaso que falhamos nelas e só fazemos parcamente um ou outro procedimento mais elementar.) Estou a ser pressionada para o cumprimento de todos os conteúdos do 6ºAno de Matemática, pois os colegas que vêm à frente querem os miúdos com atestado de prova em sumário que eu fiz o que me competia: "dar o programa". Ora os meus alunos gostam de matemática porque a ideia nas aulas não é "dar" a matéria toda (dar o quê a quem, se eles não quiserem receber nada?)mas desenvolver em todos um gosto, que perdure, pelo desafio, pelo raciocínio, pela argumentação, pela resolução de problemas... Um gosto pela matemática que resulta do desenvolvimento da capacidade de pensar, analisar resultados, verificar a razoabilidade deles...Distinguindo o essencial do acessório (sei o que devo suprimir).Tudo coisas boas para a Matemática e para a vida. Tudo competências (previstas no Currículo NAcional - não invento nada) que se suportam em conhecimentos, é claro, mas que não seriam possíveis de desenvolver se me concentrasse na "lista" infindável de conteúdos (que nunca chegaram a ser adaptados ao novo Currículo Nacional por Competências... como previsto na altura).

MP
"Será que a minha concordância com a metodologia de trabalho de projecto resulta do facto de leccionar duas disciplinas não sujeitas a exame nacional(...)"

E será que a minha concordância resulta de leccionar alunos de 5º e 6º com os exames lá longe, onde eu (aparentemente)não chego? É que cansa ouvir os colegas dizer que eles é que têm o trabalho todo de dar tudo a correr para os exames. Já perguntei mais do que uma vez de que tem servido "dar tudo" se os resultados são os que se vêem. A culpa é dos exames, eu até acredito(que a avaliação em projecto e de competências não se compadece com tão pobre meio de recolha de informação)mas a culpa não residirá noutro lado qualquer também? Falo de nós, professores. Pela parte que me toca, a experiência de 20 anos já me demonstrou que é preferível trabalhar para a competência, mesmo com prejuízo de um ou outro conteúdo (treino-lhes a competência da autonomia e do aprender a aprender sozinhos). E mesmo sendo solidária com os professores do 3ºC (e acreditando que deveriam ser facultadas condições diferentes aos professores e alunos de disciplinas sujeitas a exame - mas não mais do mesmo)não abdicarei deste princípio: eu estou a desenvolver nos alunos a literacia matemática e não a treiná-los para um campeonato de regras obscuras e validade precária. Os resultados dos treinos e do modelo de exame que se propõe, já nós sabemos quais são...

3za disse...

Elis

Tu és uma brisa fresca num dia que não foi fácil. De sol a sol. O melhor? As minhas "chinchilinhas" em Área de Projecto durante toda a manhã... os trabalhos sobre saúde quase quase a ser publicados nos dois blogues das turmas. E, conseguimos! Vamos de malas aviadas para uma sala no bloco do 3ºC (troquei com uma colega de geografia) que tem um PC ligado à net que ninguém usa... coisas. Pois nós vamos usar e muuuito!Vai ser uma alegria (ainda maior...).
Brigada pelas tuas palavras Amiga!

Ana Filipa disse...

Ó professora são tão queridas e fiquei a saber muito sobre elas...são todas suas? As bébés tambem?
Já sabe quando escrever sobre animais conte comigo para ler tudinhio!
Ana filipa

Anónimo disse...

Olá professora são tão queridas e muito obrigado pela pesquisa.
Até já estou a tentar convecer a minha irmã a ter uma chinchila.

Beijinhos,

Ana Patrícia

Anónimo disse...

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