domingo, janeiro 08, 2006

O Professor é um segredo...


O professor compra uma agenda nova, um caderno bonito, uma caneta verde. Prepara-se com expectativa (com esperança?) para o que o novo ano lhe trará.
O Professor é um aluno que não quis deixar a escola.

O professor zanga-se, "congelado", longe da família, horário mau, vida difícil. Faz promessas e juras: não gasta nem mais um minuto no fim de semana, nada de projectos loucos, nem mais um tostão do bolso, nem mais um tinteiro, uma folha de papel, gota de tinta, gota de sangue, gota de suor. Espreitem uns dias depois.O professor está, outra vez, a fazer a festa com os alunos. A festa é, quase sempre, muito maior.
O Professor tem forma de coração com memória fraca.

O professor não tem endereço electrónico. Não escreve textos no computador. Não quer. Diz que não, que não gosta, que não percebe. O professor insiste que prefere lápis e papel. Nunca, nunca conseguirá. Diz que não vale a pena. E depois... O professor pede ajuda ao filho. O professor faz formação. Aceita a mão de outro professor. O professor dá mais um passo.
O Professor é um caderno já muito cheio, onde encontramos sempre muitas folhas brancas.
O professor fala de saúde, futuro, matemática, inglês, poesia, estudo, música, informática, livros. Sabe fazer projectos, jornais, cartazes, desenhos, receitas, teatro. Cura feridas, ampara tristezas, acalma medos. Escuta segredos, dá conselhos, conta anedotas, prepara passeios, monta exposições. Dirige a escola, dirige um grupo, escreve regulamentos, prepara oficinas, constrói materiais.O Professor não sabe o que quer ser quando crescer.O professor faz muitas perguntas, por dentro e por fora dele. O professor gosta que lhe façam perguntas. O professor ensina que as perguntas são a melhor maneira de aprender. O professor acha mais difícil fazer uma boa pergunta do que dar uma má resposta. O professor ensina a perguntar. O professor não sabe todas as respostas.

O Professor é um ponto de interrogação com muitas respostas possíveis.

O professor tem medo. De não conseguir, de não ser capaz, de errar, de acertar, de se perder, de perder alguém. Tem medo de ter medo. Medo de não ter medo. Medo de avançar depressa, de avançar devagar. Medo de ficar parado. O professor tem medo que não aconteça nada.

O Professor usa o medo como meio de transporte.

O professor chora, ri. O professor sofre, mastiga desgostos, partilha-os se forem maiores do que ele próprio. Tem sonhos, tem desejos. Às vezes pinta, às vezes canta, outras escreve. Planta flores, cria borboletas, namora, ama, tem filhos, não tem filhos, representa, dança, vai ao cinema. O professor é feliz, é menos feliz, é feliz outra vez. O professor fica parado a pensar no que sente. O professor é de todas as cores por dentro e por fora. Mais do que o arco-íris. Mais do que a maior caixa de lápis de cor do mundo. Mais do que todas as cores que se podem imaginar.

O Professor do avesso é tão colorido como do direito.

O professor recomeça tantas tantas vezes, que desiste do prefixo "re". O professor caminha numa estrada que dá voltas e voltas e voltas... Não se lembra de ontem. Não sabe o amanhã. Oferece o tempo que tem.
O Professor não tem princípio nem fim.

O professor tem uma magia só dele. Um feitiço que lhe foi lançado, não se sabe quando nem por que fada. Ele é Bela ou Monstro, Princesa Adormecida, Gata Borralheira, Capuchinho Vermelho, Branca de Neve. As madrastas, os lobos, as bruxas, as trevas vão andar sempre por aí. Ele luta, história a história, contra todos eles.
O Professor tem de ser o final feliz de todas as histórias, para que o mundo se salve.

Por entre o som das palavras, o professor é cheio de silêncios que poucos conhecem. Silêncios que falam, muitas vezes, uma língua que quase ninguém se lembra de ter ouvido.

O Professor é um segredo que se deve contar em voz alta, para toda a gente ouvir.

 

Teresa Martinho Marques
Texto publicado no Correio da Educação, CRIAP ASA, nº232, 3 de Outubro 2005.

7 comentários:

EdMartinho disse...

A meu ver (suspeito), este é um texto de referência. Está por aí alguém?

3za disse...

Eu... pobrezinha de mim... depois de um dia daqueles... que parecia não ter fim... mas vida de Professor é como é...
Beijinhos
T

MJ disse...

Muito boa escrita!
Adorei ler.
Não teria dito melhor...

3za disse...

Obrigada! :))

IC disse...

Sim, este é um texto de referência! Se está por aqui (mais) alguém, não sei, mas isso é porque há o Face Book, e a Teresa actualmente é mais lida lá. Além disso, muitas pessoas (como eu)já não são tão assíduas nas visitas à Teia porque há MUITO que a Teresa é uma referência MUITO grande, sabemos o que pensa e faz :)
Este texto é maravilhoso.
Sabemos que não retrata todos os professores, mas retrata, de facto, todos os que amam a profissão, os alunos. E o que de melhor podemos desejar para as nossas crianças e jovens é que todos os seus professores se sintam retratados pelo texto (também se desejam outras políticas educativas, mas nem a melhor de todas valeria sem estes professores).
Abraço e muitos beijinhos.

IC disse...

P.S.
Lol... Vim comentar devido à partilha do Carlos Leão no FB, e só depois reparei que o texto é de 2006. Mas, passados cinco-seis anos, lá está como texto de referência :)))

3za disse...

:)) pois... quase tão velhinho como eu :)) Foi o Pai que resolveu repescá-lo por uma razão particular que se percebe apenas no final da entrada dele no tempo de recordar. Uma partidinha que me pregou com ternura :))
Beijinhos