sábado, setembro 02, 2006

Brincar, música, azul


Depois de umas férias partilhadas com trabalho, não é que hoje me chega uma nostalgia, um desejo de brincar com flores, música, palavras?
Parece que procuro abastecer-me do combustível, da reserva de serenidade, de uma certa lentidão que contrarie a aceleração que já se pressente nos mapas das reuniões, nas combinações de encontros para concluir tarefas atrasadas, no corre corre de construção de horários...

E brinco com a convicção de que é preciso ao professor que se preza brincar a sério com tudo o que lhe possa dar prazer, para poder ser maior, mais doce, mais presente junto dos seus alunos...
Já reguei o jardim, arranquei ervas daninhas, brinquei com os meus bichos, tudo ouvindo música, música, muita música...
E já compus uma canção, acreditam? Pois não é que me apeteceu afinar a viola e escrever, escrever, cantar, cantar, cantar... até os dedos doerem... (pois... há tanto tempo que não afagava esta amiga, que se vingou de mim com as suas duras cordas de metal nos dedos macios da falta de treino).
Não sei o que o dia ainda me trará... mais música, possivelmente. De todas as cores. De todos os feitios. Ouvem-se umas, alimentamo-nos de outras, outras se lêem...

Acho que nestes prévios dias beberei todo o azul que puder, inspirarei todo o azul possível...
...afinal o mar está perto, o rio Sado cola-se a ele numa das mais belas baías, o céu desce lá de cima e junta-se a eles num cântico que os une e aconchega.


Monstros que nos ameaçam, previnam-se: professor alimentado, professor inspirado, professor forte não descansará enquanto não der conta de vós. E, como me dizia um amigo, não há machado que corte a raíz ao pensamento. Podeis pisar-nos. Mas esmagar-nos? Nunca!


Ouçam hoje, se puderem:

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma

E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente
Surgiu redonda do azul profundo

Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor, falta cumprir-se Portugal

Dulce Pontes : O Infante
Música:
Dulce Pontes
Letra: Fernando Pessoa
In: Dulce Pontes, "Caminhos", 1996

3 comentários:

IC disse...

Cheguei atrasada para a entrada anterior, deixo nesta a 'forcinha': Bom recomeço! E que cada colega da tua escola (e das outras) recomeçe também como dizes - em condições para não descansar enquanto não der conta dos "monstros" que nos ameaçam. Embora os monstros que nos ameaçam sejam poderosos, pois a política educativa não resulta só de quem está no ME, este é apenas uma peça ao serviço de objectivos mais amplos. Mas se cada professor se propusesse arrancar uma pena ao monstro (eu vejo os monstros como aves de rapina), todos juntos acabavam mesmo por o depenar. Os professores até são privilegiados pelas armas que têm na mão, assim se disponham a usá-las!
Muitos beijinhos :)

Teresa Lopes disse...

Não acredito! Tens uma viola? Eu também! Xi!... Sei o que é isso de dedos a doer. Não pego nela há meses...
Estas Teresas...

3za disse...

Gostei da ideia de arrancar penas aos monstros... que embora poderosos não podem (não deviam) ser mais do que nós.
E Teresa... tenho duas... uma que é uma preciosidade: Ibanez folk de 12 cordas... ainda feita artesanalmente à mão (eu não sabia o que estava a comprar mas acertei... tinha 17 aos... os pais pagaram a maioria ao ver o meu gosto pela música e eu juntei um dinheirinho extra... foi numa loja super alternativa na estação de metro dos restauradores em Lisboa... mais tarde vim a saber que havia feito uma excelente compra e até me ofereceram bom dinheiro por ela, imagina!). Depois, mais recentemente, comprei uma muito boa também, de seis cordas, com um amplificador já instalado que me permite ligá-la ao PC para usar isto aqui como se fosse um estúdio de gravação. A primeira viola ofereci-a à minha mana mais nova, mas acabou por se danificar com o tempo, regressou a mim e está pendurada numa parede apenas como elemento decorativo e estimulador da memória de outros tempos em que aprendi tocar tantas canções... das fáceis... com os amigos. Beijinhos.