domingo, fevereiro 22, 2009

Doces penas...

Quando um poema (cantado) de alguém começa a subir pelo corpo acima, vem um desejo súbito de descobrir o quem e o quando escondidos na melodia de letras.
Escutava eu a
Carminho, enquanto vou corrigindo uns muitos testes e trabalhos que trouxe de presente para o Carnaval (época de que nunca gostei e aprecio apenas como um tempo onde posso pôr trabalho e ideias em ordem), quando as penas na voz dela me motivaram uma mui curta interrupção com navegação breve até aqui (bendita 'net que nos viaja com barco fácil nos súbitos desejos):

As penas

Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto...
Sabe-o Deus e sei-o eu

(Fernando Caldeira)


Desconhecendo (confesso) o nome que se me apresentava a assinar as penas, avancei na viagem até aqui:

Fernando Caldeira: Acerca de pés, poesia tão imbrincada, tão fagueira, tão dengue, com tantos suspiros e aromas e beijos e quindins, ninguém a urdiu como este poeta. Fazer de um composto do tarso, metatarso, falanges, músculos, nervos e cartilagens um tecido de frases tão ternas e lânguidas, isso, para mim, tem mais engenho e poesia, mais ideal e estética, mais perrexil e atavios, que os dois pés reais da dona do pé cantado.
Esta poesia em Inglaterra seria inverosímil. Ninguém diz em Inglaterra pé grande: evitam-se cautelosamente os pleonasmos num pais onde o tempo é dinheiro e as palavras de mais são desperdícios. Tenho a colecção dos poetas britânicos de Samuel Johnson. São sessenta e oito tornos. Pois não há poeta, um só, que cante um pé de inglesa, nem de ninguém.
O próprio Byron, posto que desdenhoso da sua pátria, respeitava por tanta maneira os pés das senhoras suas patrícias que, nas poesias enviadas às suas amadas italianas, ou lhes não falava nos pés, ou, se a rima o obrigava, abstinha-se de lhes chamar pequenos. Aqui tenho um exemplo à mão. É uma poesia à condessa Guiccioli, que devia ter um pé benemérito das carícias de Fernando Caldeira. Diz Byron, com os olhos postos no rio Pó: «A corrente que meus olhos seguem irá lamber as muralhas da sua terra natal e murmurar-lhe aos pés.»
The current y behold will sweep beneath
Her native walls, and murmur at her feet.
Feet somente. Um poeta qualquer, que não fosse insular e um pouco coxo, não deixaria de adjectivar aqueles pés. Parece que os meteu na estância por causa da rima eath.

Ainda bem que o meu prezado Fernando Caldeira floresce numa região em que, se por capricho quiser cantar um pé grande, tem de passar com a fantasia o canal da Mancha.

Camilo Castelo Branco



Eu queria parar, mas não consegui, não agora à beirinha dele, sentindo que a urgência não estava concluída a modos de me alimentar o inexplicável apetite. Só mais um minuto disse eu de mim para mim, prometo que a seguir, já já, retomo o trabalho e o caminho do dever e das coisas úteis...

E continuei...

... até encontrar aqui as palavras certas que saciaram o possível e escreveram fim na busca:

Fases da vida

Abri meus olhos ao raiar da aurora
e parti. Veio o sol, e então, segui-a
a sombra, que eu julgava guiadora,
a minha própria sombra fugidia.

E foi subindo o sol; Ao meio dia,
Escondeu-se-me aos pés a sombra; agora,
se volvo o olhar onde passei outrora,
vejo-a seguir-me, a sombra que eu seguia.

A gente é o sol de um dia; sobe, avança,
passa o zénite e vai na imensidade
apagar-se do mar, onde se lança.

E a vida é a própria sombra; meia idade,
somos nós que a seguimos, e é a Esperança;
depois segue-nos ela: é a Saudade.

Fernando Afonso Geraldes Caldeira (n. em Águeda a 7 Nov. 1841; m. em Lisboa a 2 de Abril 1894)

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa - Edições Unicepe 2004)



Regresso às coisas próprias e práticas da vida, tão contidas num tempo que nos escapa entre os dedos. Só a poesia me esquece desse tempo contado e me leva de mão dada pelo ar a fingir que nada do que é preciso é necessário e que temos todo o tempo do mundo para um doce fazer-nada, um doce saborear-de-coisa-alguma nos caminhos e colo sem corpo das palavras onde gostamos de nos embalar.

Estou sedenta do tempo sem ponteiros que é o tempo da poesia.

(Se gastei mais algum tempo para fazer e partilhar esta viagem aqui, foi a solidariedade que me moveu na esperança de poupar esse exacto tempo a quem tenha sentido, ou venha a sentir, a mesma vontade que eu senti e ainda tenha menos tempo do que o tempo que eu não tenho).

Sem comentários: