domingo, novembro 19, 2006

Brinquedos e ferramentas

Gosto do Rubem.
Preciso de regressar (com ele) à simplicidade das coisas. Diria mesmo que se está a tornar urgente...
O que vão ler de seguida, já o ouvi dizê-lo de viva voz. E é especial.

Escutem com atenção.
(Eu é que devia escutar com muita atenção... prometo que o farei!)

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Rubem Alves: A caixa de brinquedos

A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho.

Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne".

Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso.


Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "Uti" significa o que é útil, utilizável, utensílio. Usar uma coisa é utilizá-la para obter uma outra coisa. "Frui" significa fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma.

A ordem do "uti" é o lugar do poder. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do "frui" é a ordem do amor —coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para serem usadas, mas para serem gozadas. Aí você me pergunta: quem seria tolo de gastar tempo com coisas que não servem para nada? Aquilo que não tem utilidade é jogado no lixo: lâmpada queimada, tubo de pasta dental vazio, caneta sem tinta...

Faz tempo, preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira idade. Velhos aposentados. "Inúteis" —comecei a minha fala solenemente. "Então os senhores e as senhoras finalmente chegaram à idade em que são totalmente inúteis..." Foi um pandemônio. Ficaram bravos, me interromperam e trataram de apresentar as provas de que ainda eram úteis. Da sua utilidade dependia o sentido de suas vidas.


Minha provocação dera o resultado esperado. Comecei, mansamente, a argumentar. "Então vocês encontram sentido para suas vidas na sua utilidade. Vocês são ferramentas. Não serão jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Uma música do Tom Jobim é inútil. Não há o que fazer com ela. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel higiênico é muito útil. Não é preciso explicar. Mas um poema da Cecília Meireles é inútil. Não é ferramenta. Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico à do poema da Cecília..." E assim fui acrescentando exemplos. De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida não se justifica pela utilidade, mas pelo prazer e pela alegria —moradores da ordem da fruição. Por isso Oswald de Andrade, no "Manifesto Antropofágico", repetiu várias vezes: "A alegria é a prova dos nove, a alegria é a prova dos nove...".

E foi precisamente isso o que disse santo Agostinho. As coisas da caixa de ferramentas, do poder, são meios de vida, necessários para a sobrevivência (saúde é uma das coisas que moram na caixa de ferramentas. Saúde é poder. Mas há muitas pessoas que gozam de perfeita saúde física e, a despeito disso, se matam de tédio). As ferramentas não nos dão razões para viver; são chaves para a caixa dos brinquedos.

Santo Agostinho não usou a palavra "brinquedo". Sou eu quem a usa porque não encontro outra mais apropriada. Armar quebra-cabeças, empinar pipa, rodar pião, jogar xadrez ou bilboquê, jogar sinuca, dançar, ler um conto, ver caleidoscópio: tudo isso não leva a nada. Essas coisas não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou. Comparem a intensidade das crianças ao brincar com o seu sofrimento ao fazer fichas de leitura! Afinal de contas, para que servem as fichas de leitura? São úteis? Dão prazer? Livros podem ser brinquedos? O inglês e o alemão têm uma felicidade que não temos. Têm uma única palavra para se referir ao brinquedo e à arte. No inglês, "play". No alemão, "spielen". Arte e brinquedo são a mesma coisa: atividades inúteis que dão prazer e alegria. Poesia, música, pintura, escultura, dança, teatro, culinária: são brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre a felicidade, ainda que em breves momentos de distração, como diria Guimarães Rosa.

Esse é o resumo da minha filosofia da educação. Resta perguntar: os saberes que se ensinam em nossas escolas são ferramentas? Tornam os alunos mais competentes para executar as tarefas práticas do cotidiano? E eles, alunos, aprendem a ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos? Têm mais alegria? Infelizmente, não há avaliações de múltipla escolha para medir alegria..

http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u877.shtml
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www.rubemalves.com.br
Rubem Alves é professor da Unicamp, psicanalista, escritor e um dos mais competentes e sensíveis estudiosos brasileiros do processo pedagógico.
Biografia: http://www.releituras.com/rubemalves_bio.asp

6 comentários:

bell disse...

Também já tive o prazer de ver e ouvir Ruben Alves! Foi no Hotel Altis, em Maio de 2004. Teremos estado no mesmo Encontro?

Adorei ouvi-lo! A paixão, o amor, o humor com que falava de educação! Sem dúvida, um homem extraordinário!

Anónimo disse...

que delícia...


***

3za disse...

... se foi nos encontros de primavera da ASA... não estive presente, mas tenho o DVD com a gravação da intervenção do Rubem, gentilmente cedido pelo Director do Correio da Educação (com o qual tenho colaborado) - José Matias Alves.

Delícia... é a palavra certa...

IC disse...

Como diz tsiwari, o texto é uma delícia. E é importante lê-lo.
Entretanto, fui pelo link ao site de Rubem Alves, tem lá aquele poema de José Régio que termina assim:

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

- Sei que não vou por aí!

Um poema oportuno nesta sociedade actual e nesta política actual. Tenho ideia de que já usei excertos dele no meu cantinho, mas fiquei com vontade de o pôr lá num destes dias.

Obrigada, 3za, pelo texto :)

bell disse...

Foi aí mesmo! Gostei tanto que até comprei dois dos seus livros.

3za disse...

Tenho imensos livros dele... a maioria está por ler ali na prateleira... vá-se lá saber porquê...
De nada IC! Rubem nasceu para ser partilhado...
Beijinhos