quinta-feira, outubro 05, 2006

O meu (nosso) dia

Mais de 20 anos de caminho.
As doenças curadas na escola, de pé. O adiar de tudo por eles, os alunos. Só mais um ano... sempre só mais um... e foram-se passando sem dar por eles... a família também sabe.
Olhei pouco para mim nestes anos... dei toda a minha atenção à escola e não encontrei um tempo para cuidar de especializações e graduações que me afastariam da entrega ao que considerava importante... Fui estudando na solidão dos dias, organizando informação, aprendendo a ser melhor em cada hora, sem transformar essa busca em títulos. Partilhei com quem quis o que fui descobrindo.
Não aceitei convites para ir para a Universidade, para integrar a ESE, porque me pareceu sempre que os alunos precisavam mais de mim no terreno fértil, duro e tantas vezes triste e difícil da escola.
Aceitei todos os cargos/tarefas, entreguei-me a eles com sentido de dever e coração, partilhando o que fui aprendendo.
Concebi e desenhei formação que foi acreditada.
Concebi, com outros, projectos que trouxeram mais recursos para os alunos, para a escola.
Reinventei, redesenhei em cada ano tudo o que consegui.
...
páro aqui, mas não por falta de coisas para enumerar.


Mas no processo transitório para o novo ECD tudo isto, toda a experiência de pouco valerá.
Desde há um ano que estou no limbo... avaliação concluída no 8º (... aguardava apenas a data formal de transição para o 9º e, somente por alguns dias, vi uma ambição legítima - porque sentia merecer - cair por terra). Sem perceber ainda exactamente o que vai acontecer (que mudanças vão ainda surgir?)... parece-me antever uma permanência continuada por mais tempo que o merecido no 8º... e, mesmo apresentando provas no período tansitório, se existirem professores com formação especializada, ou maior graduação académica (2º e 3º critérios), serão eles a preencher os poucos lugares existentes de titular (não se esqueçam das cotas). Merecem. Mas eu também merecia. Mereço.

Para concluir, se não chegar a ser professora titular... não poderei desempenhar qualquer um dos cargos pedagógicos que me foram atribuídos durante mais de 20 anos ao serviço da educação e que me permitiram ir pondo ao serviço dos outros o melhor de mim.

Ora, dirão alguns, ralas-te porquê? Finalmente vais ter uma férias merecidas... sem grandes responsabilidades, sem preocupações excessivas para além das que trazem a vida de professor que tanto amas...

Mas, não me julguem pouco modesta (é o meu dia, tenho direito) sei que a minha falta vai ser sentida se for afastada pelo ECD a hipótese desse meu contributo. A vida e as pessoas com quem me cruzei falam por mim. Não haverá curriculum escrito que o diga melhor (embora eu reconheça a necessidade destes instrumentos).


Talvez por isso esta tristeza profunda que se me colou hoje à alma. Uma dor que não estou a conseguir afastar de mim.

Compreenderão.
Sempre defendi a avaliação. Sempre lutei por ela.
A avaliação que me oferecem exclui-me, não deseja mais o meu contributo em tarefas com implicação directa e indirecta no trabalho com os alunos. Não me julguem mal. Alguém que não fugiu da escola para outras instituições porque não quis, não quer desempenhar cargos pelo prazer dos títulos. Cargos dão trabalho, são desafios complexos se forem colocados ao serviço do bem da escola, do bem dos outros. Não os ter é provavelmente mais fácil... Talvez devesse realmente ficar aliviada e não triste...
A partir do momento em que o ECD entrar em vigor, poderei deixar de estar apta para essas tarefas. Fui apenas competente durante alguns (muitos) anos para as exercer (não enumero, seria fastidioso). Aprendi muito com elas, com todos aqueles a quem servi. Procurei fazer a diferença. Ajudar à construção de todas as reformas, de todas as reorganizações, de todas as aventuras por onde a escola tem sido conduzida...

Mas deixarei de ser competente para tal. Está bem. Não percebo o sentido que isso possa ter.
Mas decerto alguém vai ser capaz de me explicar...

Raramente falo de desilusão.
A teia é testemunha. Quem me conhece. Todos vocês.


Mas hoje é o meu dia e gostava de o poder celebrar sem sombras.
Em vez disso, coração apertado. Nó na garganta. Busco desesperadamente o sentido das coisas porque me espera um dia de muito trabalho... listas de coisas a que tenho de dar resposta.
Gosto muito mais de o fazer com um sorriso...
E hei-de acabar por encontrar um.

É verdade, podem acusar-me disto: hoje olhei para o meu umbigo...
Sou culpada, pronto.
Mas é o meu dia. O nosso dia. Não é o dia de mais ninguém.
(Direito a pensar um bocadinho em mim.)

ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE - ALTERAÇÕES À PROPOSTA DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO NO ÂMBITO DO PROCESSO DE NEGOCIAÇÃO COLECTIVA (4/10/2006)

11 comentários:

soledade disse...

Teresa, em perfeita sintonia, até no percurso profissional e na desilusão. Mas, apesar de tudo, nós tivemos (e vamos tendo, embora muito condicionada) a melhor parte: os alunos. E a nossa própria entrega feliz e entusiástica. Que mais nos redime do desencanto, nos ajuda a atravessar os dias áridos, o sofrimento, o universo concentracionário da "nova" escola?
Celebremos, Teresa. Contra tudo, porque devemos. Hoje é o nosso dia. Contente de te chamar: "colega"!

Teresa Lopes disse...

Lindo, este teu texto, como não podia deixar de ser.
Beijinho

3za disse...

É, sem dúvida, a melhor parte. O motor de tudo. Por eles todos os sorrisos do mundo, a energia a força.
Sim, Soledade, tens razão. Celebremos (o sorriso a voltar por entre o desalento), apesar de tudo. Por eles, para eles, com eles. Recíproca a alegria e extensível a todos quantos sentem esta profissão com doce intensidade...

3za disse...

Obrigada Teresa... Acordei assim... e aos poucos descolo o desalento que me tomou ao ler com cuidado as novidades...
Beijinhos

Rosa dos Ventos disse...

Cantai um novo dia!
Para mim só o canto do cisne!...

prof disse...

Engraçado, Teresa, tantas afinidades - até no tempo de serviço (por uns dias, também eu permaneço no 8º escalão, quando devia ter transitado para o 9º há um ano!)

Filomena Galego disse...

Teresa , compartilho essa desilusão . Durante 33 anos pensei , acreditei e senti( sinto) que era plenamente professora. Era este o caminho, a forma de estar, a profissão a que me entreguei... Agora vou ser ( talvez )equiparada a professora titular ... Mas eu não quero ser equiparada a qualquer título que por direito me pertence há mais de 30 anos . Já apresentei um currículo, um trabalho de natureza pedagógica e foi submetida a prestação de provas públicas para transitar do 7º para o 8º escalão...
O regime transitório de acesso a professor titular tem regras de assiduidade com seis anos de retroactividade. As regras do jogo são definidas depois dele terminar...Ms a nossa vida e a nossa profissão não são um jogo!
Nos dois últimos anos fui submetida a intervenções cirúrgicas no mês de Julho. Passei as férias a recuperar das operações para estar ao serviço em Setembro. Mas mesmo assim não sei se cumpri esse critério de assiduidade.
Ser professora, mãe,esposa, fiha,nora ... vai ser factor de penalização! Ser mulher vai ser penalizador na progressão na carreira, é o que eu sinto!
É uma teia de desilusão que me rodeia agora .
Mas amanhã a luz dourada de Outono vai voltar a encher o meu dia, quando entar na escola e encontrar os meus alunos! Só por eles ainda vale a pena! Só aí, eu não me lembro deste desencanto, me transformo e volto a acreditar...

3za disse...

Como tens razão Filomena...
Tenho uma amiga que lutou contra o cancro da mama e esteve dois anos com parte de redução da componente lectiva... não cumprindo portanto tempo integral... e agora regressou, ainda a fazer tratamentos complexos com horário pesadíossimo. O que significa isto? Exactamente o que dizes: um injustiça atroz, um atentado aos mais elementares direitos de cidadão e uma discriminação flagrante, mais uma vez e sempre, da mulher na sociedade.
Que país este...
E é como dizes... entramos no universo, no reino encantado da aula (quando temos a sorte de não entrar num pesadelo em contextos complexos) e tudo esquecemos, tudo fazemos para que eles não sintam uma gota do peso que se carrega na alma...
Obrigada pela visita!

E prof.... somos tantos injustiçados que há assim uma afinidade a unir-nos e a dar-nos a certeza de que merecemos mais. Estas partilhas, pelo menos, permitem-nos sentir que não estamos sós nem no desalento, nem na coragem como enfrentamos os dias...
Beijinhos!

Pi disse...

Espero que compreendas o meu desabafo... (Não te esqueças de ler as aspas).
Hoje, passado o teu dia, já posso comentar o manifesto do teu desalento.
Como sabes, sou fã do teu trabalho, de ti! Mas (há sempre um) todos temos de, para além dos alunos, olhar para o nosso trabalho de cima, com distância suficiente para vermos tudo. E tudo não se resume aos nossos meninos. Tudo são também os colegas que cumprem e que não cumprem, são os EE que nos criticam e raramente nos elogiam, são os Conselhos Executivos, são as CAE, são as DRE e é o Ministério. Temos de agir em todos estes níveis. Não o fizemos durante muito tempo e, agora, cai-nos tudo em cima. São medidas para tentar governar os incumpridores, porque os cumpridores estiveram demasiado ocupados "apenas" com os alunos. E agora? Serão as D. O. e os C. A. a cumprir a pena? Não! São as Teresas!
(peço desculpa pela imodéstia, mas estou farta de partilhar a sala de professores com alguns palermas e ser tomada por um deles)

BE-CRE Azeitão disse...

Claro que compreendo o teu desabafo! Já nos conhecemos há tanto tempo! E conheço bem esse meu "mas"... essas minhas culpas no cartório... essas minhas benevolências e compreensões... esse meu universo sempre mais feito de meninos que do resto. Só me ocorre que lutei à minha maneira, e por vezes arrastei colegas, ajudei a melhorar um ou outro desempenho... quem sabe... é mais forte do que eu este centrar-me nos pequenos (não só neles, na formação e partilha com os colegas tb)... mas sei as custas do processo, sei... mesmo sem acreditar que me possa emendar... muito... mas ajudando como posso... enfim...
O que dizer?
... pois...

3za disse...

Ai pi.. era eu a escrever... estava "ligada" pelo blogue do CRE... bj