quarta-feira, janeiro 20, 2010

O paradigma do 69... ou de como vamos perdendo as penas das asas

Antigamente (num antigamente ainda recente aqui por Portugal - ver adenda no fim) para se poder ter Bom num teste era preciso obter 75% ou mais da cotação (não estou agora a discutir a qualidade/exigência/indicadores dos testes). Para mim, já o disse aqui uma vez, abaixo de 80 é sempre um Bom magro...

Com a moda dos exames nacionais em que 70% (seja lá o que isso for) já é Bom... algumas escolas, como a minha, puseram-se a pensar muito sobre o assunto e decidiram que, se nos exames nacionais a exigência é pouca, então vamos lá descer de 75 para 70 e dar Bom(zito) a todas as almas que conseguem um 70% num qualquer teste.

De repente o 69 passou a ser assim uma coisa mesmo muito especial... quase Boa, embora ainda Suficiente... assim um Suficiente mais, um Suficiente gordo, um Suficiente quase Bom... sei lá... um Suficiente quase maravilhoso! Repito-me (porque dei eco aqui na teia nessa altura), mas todos os anos esta coisa me aborrece e as consequências começam a estar à vista.

Há países onde o 60 por cento numa qualquer avaliação não é considerado sequer satisfatório (Lembro as notas do meu enteado que viveu no Canadá, onde o 60 era sinal de alerta e motivo de preocupação, implicando advertência a Pais, trabalho de recuperação e mais os etecéteras todos que, entre muitos outros factores, colocam o dito país entre os melhores nos resultados internacionais - não vou discutir agora o que isso significa, nem os outros factores igualmente importantes que o condicionam). Quem diz este, diz outros. E podemos falar de níveis de ensino diversos (do não superior e do superior) onde a bitola se ajusta por cima e nunca por baixo... e 60 é pouco mais que mediocre.

Mas nós somos especiais. Podíamos ser grandes, mas acomodamo-nos à nossa pequenez e continuamos na senda do encolhimento intelectual e cultural, porque enfim, coitadinhos e essas coisas assim... e a frustação... e os traumas e pronto.
Converso com os meus alunos sobre estas questões, estas perversões... Explico que sou obrigada a dar Bom, mesmo quando não acho que Bom seja a designação que melhor se aplica ao seu trabalho. Explico que é preciso pensarem mais além da nota. Que é preciso exigir de si próprio o melhor, não ceder à tentação da satisfação com pouco, à alegria por palminhas com cheiro a truque. Falamos muito de exigência, de disciplina no trabalho, de honestidade, de pontualidade, de cumprimento do dever que nos cabe (a mim e a eles). Falamos de saber aceitar os resultados menos bons como sinais de que podemos e devemos fazer melhor, como ponto de partida para reflectir e subir e não como rótulos colados na pele, ou motivações para choros infindáveis pouco produtivos.

Hoje pude olhar para 11 testes em 13 onde se encontram erros deste tipo (acumulados):

- uma estrutura desenhada (pelos próprios alunos) inclinada de cerca de 30º em relação à horizontal (estimativa visual) depois dos cálculos surge como tendo por inclinação as seguintes amplitudes: 89,5º; 88, 14º; 89º; 10º e outras coisas semelhantes...

- uma escala gráfica, onde se indica a distância - 25 mm - correspondente a 250 m, mal interpretada... erros de quem não consegue converter entre si unidades do sistema métrico... de quem não raciocina sobre o que está a fazer: uma estrutura que tem uma espessura aparente de cerca de 100 m (cortada na diagonal... e que se percebe ser um pouco maior do que a espessura real medida na perpendicular entre as linhas...) gerar espessuras reais de quatrocentos e muitos metros.... de 0,007 m... de 1,5 cm... distâncias sem unidades.... em vez dos supostos cerca de 82 m...

Há mais exemplos de outras coisas semelhantes e bem mais graves e reveladoras de uma total ausência de sentido espacial, ou sentido do número, mas paro por aqui.

Isto depois de um penoso semestre com o professor a ensinar os alunos corpo a corpo, mesa a mesa, a medir com um transferidor, a converter unidades do sistema métrico entre si, a operar com fracções (Oh professor, por que é que aparecem aí os denominadores todos iguais???)

Ah! Dois alunos devem ter achado o teste muito fácil (e era... ) pois não falham uma única resposta. Todos os outros terão negativa.

Tudo poderia parecer algo normal no panorama educativo nacional. Poderia. Poderia estar a falar de alunos do 6º ano de escolaridade (chocar-nos-ia, mas nem muito). Talvez do 3º Ciclo (já nos feriria os sentidos)... Quem sabe do Secundário... (seria muito muito triste e preocupante)
Mas trata-se de uma turma, de um segundo ano de uma Universidade, a frequentar um curso na área das Ciências (logo, a Matemática foi uma componente essencial do currículo escolar).

Resta dizer que se fossem estes os testes que nos tivessem sido apresentados na primeira metade da década de 80... na mesma Faculdade, a geração do curso desses anos deveria ter terminado a licenciatura com 20 valores. Não acabou. Foram dois 17... e abaixo apenas um 15 e depois avaliações inferiores. Mas não eram estes os testes. A exigência era outra.
Se isto é assim num espaço onde é suposto estar quem passou num diz que é uma espécie de crivo... o que podemos imaginar sobre quem ficou à porta?

Costumo falar destas coisas aos meus alunos. De como é triste (e um insulto ao seu sentido lógico) vê-los deixar num teste como resposta a um problema: a idade de um menino como sendo 99 anos... o peso de uma criança como sendo 400 kg... o dinheiro que se entregou, para pagar algo, como tendo um valor inferior ao do preço pago (que é dito, juntamente com o troco)...
E de ano para ano torno-me mais exigente, estico os limites dos desafios, procuro trabalhar para a excelência real e não para essa ilusão balão de ar. Explico-lhes as razões.

O paradigma do 69 atrapalha-me o caminho e os gestos, mas não desisto nem me aproximarei do chão arrastando os alunos comigo, roubando-lhes as penas das asas uma a uma, só porque sim e tal.. só porque nem vale a pena... só porque assim ficam todos felizes e dói menos a quem ensina e a quem aprende.

A verdade e uma certa dose de infelicidade e frustração ajudam-nos a crescer...
A mentira não.


ADENDA: Não posso deixar de acrescentar o comentário pertinente de um leitor, que merece ser trazido para a página da frente:

Sem pôr em causa o sentido do artigo, com que concordo, não posso deixar de comentar que há 40 anos atrás 14 (70%) era "bom" pequeno. A diferença é que no meu Liceu raramente alguém tinha mais que 15 no 1º período, 16 no 2º e 17 no 3º. Nos meus anos, pelo menos, não recordo ninguém que tenha tido, fosse qual fosse a disciplina. Portanto 14, 70%, era de facto bom...

11 comentários:

2ora disse...

Excelente Teresinha!

Herr Macintosh disse...

Lembro-me, há uns anos, de ter visto um teste de alunos de Geologia da FCT com resultados desastrosos em que cerca de metade do teste até eu (que nunca tive especial vocação para a disciplina) fazia porque era simples cultura geral.

3za disse...

Dorinha... que bom ter-te aqui... e o Herr junto... Recuei uns anos... nós três no Laboratório às voltas com os "Macintoshes"... Grande trio (lembras-te de como o Herr ficava doido com as nossas conversas cor-de-rosa paralelas??? lol)
POis é Herr.... Assim vai a coisa... Só faltam aqueles testes das graçolas dos mails com perguntas do tipo: sublinha a palavra Geologia......

Anónimo disse...

Sem pôr em causa o sentido do artigo, com que concordo, não posso deixar de comentar que há 40 anos atrás 14 (70%) era "bom" pequeno. A diferença é que no meu Liceu raramente alguém tinha mais que 15 no 1º período, 16 no 2º e 17 no 3º. Nos meus anos, pelo menos, não recordo ninguém que tenha tido, fosse qual fosse a disciplina. Portanto 14, 70%, era de facto bom...

3za disse...

Obrigada pela correcção e avivar de memória... (parece tão distante). Tem toda a razão... em tudo. Era um bom pequeno (eu devia ter feito o cálculo, pois) mas, nesses tempo, genuinamente bom... :)

IC disse...

Na minha ex-escola, a dada altura o CP decidiu uniformizar as expressões usadas nos testes (por exemplo, em vez de "suficiente" era "satisfaz"). Embora seguindo a terminologia decidida, como sempre fui rebelde, introduzi sempre nuances incluindo os pouco ortodoxos "-" e "+", que para os alunos e pais são esclarecedores, e numca escrevi Bom num teste com 75%, nem quando os exames nacionais atribuiram Bom só a 70%. E também não seguia a bitola da escola para o Muito Bom. Os alunos sabiam, eu explicava-lhes a minha exigência, e os alunos de facto muito bons tinham que puxar muito por si para obterem o nível 5. Isso garantia que não tivessem decepções no ciclo seguinte, sobretudo quando passavam ao Secundário. Nunca reclamaram, nem nunca nenhum ED reclamou. E encontrei posteriormente alunos que me agradeceram a exigência que eu tinha tido no 3º Ciclo e lhes permitira sucesso no Secundário, inclusive continuarem excelentes aqueles que eu fizera "sofrer" para alcançarem o meu 5. E acho que é isso que importa, e não a obediência a outros critérios.

3za disse...

Tens razão, IC, porque também é possível agir de outra forma... aumentando a exigência no trabalho da aula e nas avaliações (o que nos levaria ao tal passado de 70% - 14 - bom pequeno mas Bom, como dito no comentário anterior). Em síntese, realmente a obediência ao número/critério estabelecido será o menos importante se se conseguir definir, e desenvolver coerentemente, uma linha de acção exigente (por escola e não deste ou daquele professor isolado, apenas - embora isso já seja melhor que nada) ao invés de regressar ao 70 / 14 com cada vez menor exigência nos desafios das aulas e na avaliação.
Enfim...

Anónimo disse...

Esta é uma matéria que se presta a mal-entendidos e controvérsia, consoante a abordagem e as suas circunstâncias. Mas vale a pena tentar uma opinião...
Tomemos os 70% como bitola de referência (“seja lá o que isso for”). Admitindo um hipotético idêntico grau de exigência (mesmo professor, por exemplo), a classificação de 70% “diz” coisas diferentes conforme se tratar de um teste sobre a matéria de uma disciplina dada ao longo de uma semana, ao longo de um período ou ao longo do ano lectivo. 70% “diz” outra coisa se for a média de várias disciplinas no final do ano escolar. E “dirá” ainda uma coisa muito diferente se for a média final de um curso profissional ou de um curso superior...
Nesta matéria, porém, julgo que importa mais o ponto de vista complementar: concretamente, não tanto os 70% que alguém teve numa classificação, mas os 30% que lhe “faltam” para poder ser considerado BOM... Pensemos (por exemplo) num mecânico de automóveis e num médico. Alguém estará interessado em entregar a sua viatura a um mecânico... sabendo que lhe faltam 30% para ser competente? Alguém estará interessado em meter-se nas mãos de um cirurgião... sabendo que lhe faltam 30% para ser excelente?
Em suma, as preocupações da Teresa fazem todo o sentido.
edmar

3za disse...

Pois... Como a entrada já ia longa, não referi esta questão fundamental que este comentário traz para adiscussão... Reforcando o exemplo: sendo suficiente o 50%... Imaginemos um engenheiro que se forma com nota 10 ou 11... Que metade do edifício é competente para construir? O exemplo do mecânico é bom... de um professor, de um médico... de um enfermeiro, de um advogado.......... de todas as profissões com implicações muito directas na vida dos outros... Mesmo as que têm implicações indirectas devem ser consideradas...
Enfim...
Precisamos é de dar o nosso melhor e procurar contribuir em cada campo para evitar que o mal persista... mas não é tarefa fácil...

Isabel disse...

Olá D. (tens um blog lindo mas não dá para trocar uma palavrinha, é pena...), J. e Teresa.
A minha escola já introduziu essa "novidade" há uns 3 anos. De facto já tenho dados uns Bons "atravessados" por causa disso. Lá escrevo a notinha com b minúsculo e tal, mas faz-me alguma impressão.
Isabel(inha) O.

3za disse...

Olá Isabelinha... É sempre tão bom ter-te aqui juntinho a nós... :) :)
Beijinhos