domingo, novembro 29, 2009

Pedacinhos de vida (de uma semana de caminhos)




Oh professora, se com dois triângulos fizemos duas figuras e com três fizemos quatro, então é sempre mais uma... acho que com quatro triângulos só conseguimos fazer cinco... Então quantas folhinhas queres que te dê para desenhares as figuras que vais descobrir? (perguntou a Professora)
Bastam cinco...
(aluno de 3º ano... ficaram encantados quando descobriram que podiam fazer mais de dez figuras com 4 triângulos isósceles justapostos com as regras indicadas...)
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Então? Ele já está muito atrasado! É sempre a mesma coisa (diz a Professora apontando para o relógio). Vou zangar-me consigo a sério! Passa mais de meia hora!
Oh professora... ele ontem molhou-se todo e nem traz a mochila nem as coisas... e, olhe professora, ele tem de se descalçar aqui na aula porque os sapatos estão molhados... é a ver se secam...
... a meio da aula...
Teresa, vê lá se os meus sapatos já estão secos...
Não, meu querido, continuam molhados... mas hão-de secar... (um par de sapatos, a minha alma entristecida, um sorriso na boca e uma festinha na cara dele)
(Professora, Mãe e aluno de 1º ano, num bairro difícil)
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Então? Quatro é maior ou mais pequeno do que dois?
É mais pequeno.
Mais pequeno?
Diz-me lá... preferias que eu te desse dois rebuçados ou quatro rebuçados?
Dois...
Dois?
Sim, preferia dois...
Não preferias quatro?
(Outro aluno: era melhor dois, porque os rebuçados fazem mal aos dentes)
Rimos ambas. Eles também. Eu pensei nisso mesmo antes deles o dizerem. É este hábito de olhar pelo outro lado. De não ver apenas o óbvio da questão.Têm razão, claro. E aquele menino não deve sequer estar habituado a comer rebuçados...
Pequei na palavra... oh vil metal!... Com euros resolvemos a questão. Ou quase.
(Estas crianças têm muito mais em que pensar. E não é no Natal... nem em rebuçados, nem em prendas...)
(Professora e aluno de 1º ano, num bairro difícil)
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Sentado na secretária da Professora, informou-me que se quer ir embora e não quer fazer nada... Soube que é deixado na rua sozinho até às 11h da noite, depois de acabar a escola (frequenta o 2º ano). Estão a tentar resolver a situação. Consegui que fizesse uma figura - parecia uma coroa - e um rei por baixo dela, consegui mais duas figuras. Depois, como não é possível estar o tempo todo alguém sentado ao lado dele, desliga e resolve fazer batuques ritmados com lápis sobre a mesa, até ao final da aula... novamente perdido...
Turma com 1º, 2º e 3º ano misturados. Mais de 2o. Juntaram-se a ela, à última hora, três meninas de quarto ano (mais crescidas, porque frequentam uma turma de percurso alternativo, onde parece que o comportamento não é famoso) cuja professora faltou (alunos distribuídos por várias salas). Pelo meio... uma criança com deficiência (pede-me: tira-me uma fotografia com a minha boneca! A única coisa a que presta atenção... penteando-a compulsivamente), outra menina com algum tipo de atraso (problemas de consanguinidade, droga, álcool... são vários os casos na escola)... nada compreende e anda atrás de mim pela sala a pedir que a ajude porque não sabe fazer, o menino que não quer estar ali, vários com dificuldades, um despachado de volta de mim a suplicar por atenção... e a descobrir entusiasmado tudo o que é preciso, ao ritmo esperado, imaginando objectos por cada figura construída.
Então este... é diferente deste?
É.
E porquê?
Porque neste eu pensei num chapéu e neste eu pensei num tubarão... (argumento infalível... mas, a verdade é que a figura obtida era a mesma... e, neste caso, não posso usar nem o argumento da rotação, nem o da reflexão... Na imaginação dele há uma diferença... a Matemática às vezes reduz tudo a um denominador comum pobre e descolorido... Expliquei-lhe... e percebeu a diferença entre os sonhos e a geometria do real e, também, a possibilidade de usar ambos, conforme o que lhe era pedido e a situação... Ficámos amigos à mesma e continuou atrás de mim... Agora este é um túnel... e este é uma carrinha... e este é um avião... :)

Professora da turma feliz, porque a tarefa correu bem... Tinha receio que não resultasse.... Mas esta é uma tarefa poderosa e rica, democrática... permite a todos a produção de algo com sentido... conexões variadas. Até a menina da boneca, ao ver a exploração livre inicial dos outros, largou a boneca e fez uma espécie de árvore de Natal com triângulos, desenhando-os ao seu jeito (a professora nem queria acreditar). A certa altura, uma delas pediu-me mesmo que desenhasse um trenó com o Pai Natal no seu desenho. Desenhei-o. Sorriso grande. Mais pedidos.
Expliquem-me como é possível este cenário... Por que razão há filhos e há enteados para poupar tostões e recursos (essencialmente humanos), sobretudo onde eles são mais precisos. Quantos teriam coragem para estar ali diariamente com o coração pesado por não poderem estender a mão a todos? Quantos teriam sequer a coragem de aguentar ali mais do que um dia? Por certo, muitos dos que discursam de longe sobre educação e sobre métodos infalíveis para resolver todos os problemas, e que parecem desconhecer o mundo para além das suas redomas, não colocariam o dedo no ar e se ofereceriam para a dura experiência. Recordei-me, de repente, dos mais de 20 anos na Luísa Todi...
As meninas do currículo alternativo fizeram um trabalho bonito e ainda as convenci a ajudar os mais pequeninos que me vinham perguntar se as figuras se podiam juntar assim... Pergunta-lhes a elas, que elas são especialistas e como são crescidas sabem melhor. Elas olhavam e diziam com ar orgulhoso e importante: Podes... Essa podes... Está bem construída. No fim mostraram-me o seu trabalho, muito bem colorido e organizado.

Admiro estas mulheres, Professoras, Mães de todos os abandonados pela vida...
A formação é essencialmente sentarmo-nos ao lado delas, fazer o que fazem, oferecer ideias para gerir a diversidade... não apenas com textos, livros (nunca com burocracias distantes, mais papéis, sugestões impraticáveis) mas com exemplos, gestos, universos possíveis de criar... É do que mais precisam. Formar é, antes de qualquer coisa, ser solidário, escutar, ajudar a crescer na acção.






(Turma de primeiro ciclo, num bairro difícil)
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Vinte e cinco anos acabados de fazer. Mais uma das excepções (que não chega à TV) em que um aluno agride verbalmente aos gritos o professor (de forma absolutamente violenta e imprópria) por conta de um telemóvel que, a meio da aula, foi usado para tirar uma foto (já depois de uma primeira advertência) e devido à coragem da jovem professora na resolução da situação, primeiro pedindo, depois enviando o aluno para a Direcção. Confessou-me mais tarde o receio. Justificado. Eu estava lá e sei da histeria e do descontrolo. Da violência do olhar ameaçador. As nossas medidas disciplinares aplicadas como a lei manda: é um aluno que veio "transferido" de outra escola, por conta de um processo disciplinar, e foi integrado na turma (difícil) desta professora numa escola não fácil.
De repente, a Matemática foi a coisa menos importante do dia...
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Ainda algumas imagens de outras tantas viagens feitas na semana que passou...



À hora do almoço de sexta... fui a correr comer qualquer coisa num café onde ia quando era professora na Luísa Todi. A cara da jovem que me atendeu não me era estranha...
Não é a professora Teresa Marques? Sou! E tu foste minha aluna!
Tem agora 19 anos... e quando lhe perguntei em que altura havia sido minha respondeu:
Foi a altura em que a professora estava a cuidar de um pintassilgo bebé que caíu do ninho aqui na escola e levava a gaiola para a aula de Ciências e o soltava para ele voar entre nós e pousar nos nossos cadernos e o alimentava à nossa frente explicando coisas... Eram as aulas de que eu mais gostava.

(identifiquei logo a turma... deu-me notícias de quase todos... )

De repente, todo o cansaço acumulado da semana (ainda por terminar, com os acompanhamentos de aulas à tarde) desapareceu...

7 comentários:

ponte disse...

Nomeação definitiva e nada oficial de professora do ano.

Raul Martins disse...

Eu também voto na Teresa...
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E viste que foi o cuidar de um passsarinho ("foi o tempo que dedicaste... que fez com que fosse importante...")que fez com que aquela aluna não mais se esqueça das tuas aulas? E por vezes andamos com a cabeça à roda a encher a dos miúdos com mil coisas que nada lhes diz...
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Por esses caminhos fora... só falta levares a tua guitarra...eh!eh!eh!
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Retempera as forças que novas caminhadas se avizinham...
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Carpe diem...

Herr Macintosh disse...

Lembro-me do passaroco :-)

3za disse...

:)... obrigada...
(Herr... vinha de Azeitão com a gaiola gigante... toda a gente reparava no equilíbrio instável de mochilas, mala, gaiola :) :) Mas é que os pássaros bebés... precisam de comida a toda a hora...
... é como os meninos destas nossas zonas. Sem isso, definham.

Hugo Correia disse...

Tive um período de sete anos e meio da minha vida de trabalho com rapazes institucionalizados, a maior parte deles em fase adolescente e vindos desses bairros ditos problemáticos. Nos primeiros anos juntaram-se rapazes abandonados, maltratados pela família, com comportamentos de risco(furtos, violência, droga...). Em anos posteriores e após uma mudança da lei em 2001, apenas recebíamos rapazes colocados pelo tribunal, ou seja, com delitos cometidos. Todos eles tinham algo em comum, eram afectivamente muito carenciados. Tive de tudo nesses anos. O dia podia começar bem e acabar da pior maneira. Houve magia, alegria, festa, amizade mas também todo o oposto. O trabalho consistia no acompanhamento permanente nas suas tarefas diárias, desde ao despertar, às aulas(no exterior da sala), às refeições, ao trabalho, ao lazer até ao deitar. Tudo era monitorizado por nós. A revolta dominava a maior parte do tempo e era necessário a cada minuto tentar suavizar os comportamentos. Mas quem gosta que lhe imponha regras, principalmente a quem não as tem ou que está habituado a quebrá-las? A determinada altura quando o ambiente era muito crispado o director recomendou que houvesse uma maior elasticidade da nossa parte. Só mais tarde compreendi essa recomendação, há de facto uma necessidade constante de se ser criativo para lidar com estes miúdos sem perder de vista, claro, o respeito, a exigência e o rigor. A criatividade não era, nem é, o meu forte, contudo, tentei sempre passar o que de melhor tinha e sobretudo que eles sentissem em mim um exemplo de correcção e coerência, algo que também lhes carecia. Eu bem assisti às dificuldades também vividas pelos professores. Como era díficil dar uma aula do princípio ao fim sem interrupções e zaragatas. Todos, sem excepção, tiveram mesmo de se adaptar à situação que era de uma complexidade enorme, mas a quase todos vi uma grande vontade e dedicação. Não foram todos os frutos bons que depois se colheram, mas foram sempre alguns, o que já é significativo. É com agrado, mas sem surpresa, que sinto que interpretaste bem a tua tarefa. É sempre bom sentir que afinal fazemos falta. Tu e os teus colegas professores têm uma acção de grande importância que em muitos dos casos pode preventivamente evitar que muitos dos vossos miúdos cheguem à fase do pós 2001. Fica bem e em paz, tens razões para isso.

Hugo Correia disse...

Correcção e para ser mais rigoroso, seis anos e oito meses.

3za disse...

Hugo... a tua experiência é realmente impressionante... Se alguém compreende de alma e coração o que acontece nestes recantos, não tenho dúvidas de que estás em primeiríssimo lugar. Obrigada pelas palavras de confiança, força e encorajamento. Estar no terreno faz toda adiferença... e se pudermos fazer a diferença para algumas destas crianças... receberemos muito mais do que o pouco que damos.
Obrigada, de novo...