sábado, julho 16, 2011

O que não perdoo...


Já lá vão uns tempos... e hoje precisei mesmo de olhar para trás.
O silêncio é o natural resultado de alguma dispersão de gestos em diversas direcções e de muito trabalho (no terreno e online - gestão de vários espaços de partilha) que agora vai desacelerando.
Mas é, também, fruto de alguma falta de vontade de reagir nem sei bem a quê, já que as alterações se sucedem sem intervalo entre convulsões políticas e económicas, nunca parecendo haver um rumo/horizonte qualquer mais estável sobre o qual possamos alongar o olhar, reflectir, pensar, dizer...

Então eu escuto. Leio quem consegue orientar-se na vertigem dos dias para, a tempo e horas, dizer alguma palavra sobre o assunto. Eu já não consigo. Nem me apetece. Talvez por isso a pintura digital. Outras formas de dizer.

Acho que, pensando bem, devo andar mesmo cansada de palavras... das minhas, das de muitos (mundo este que não se cala um só segundo) e a necessitar de silêncio retemperador.
Talvez por isso o facebook telegramático me sirva melhor os intentos agora, que este meu espaço de demoras e pensamentos longos.

Mas hoje, pronto. Venho borrar de tinta o branco descansado da teia e inquietá-la com alguns rabiscos.

Durante dois anos aceitei convites que me afastaram um pouco da escola (75% fora + 25% dentro). Primeiro para ajudar na formação contínua de professores (1.º e 2,º Ciclos - Matemática), depois para dar forma a um sonho que alimentei durante a tese: levar o Scratch a mais meninos, através da motivação dos seus professores, e contribuir para promover um uso construcionista das tecnologias na escola (já que cada vez mais elas são usadas autonomamente pelos jovens apenas para gestos de consumo)...

Nunca aceitei convite nenhum durante os anos que precederam a vinda de MLR. Sentia-me bem na escola. Tinha frio na Luísa Todi, as crianças eram muito complicadas, chovia em algumas salas, mas o meu trabalho era respeitado, tinha tempo para os projectos da escola e para os extras com os meus meninos e o bom tinha saldo positivo sobre o mau.

Depois dela nada voltou a ser o mesmo. Eu não voltei a ser a mesma.
Não lhe perdoo o facto de ter deixado de acreditar na autoridade, de ter sido obrigada a dispersar a minha atenção ao dever de ensinar pela burocracia e pelo muito repetido dever de gritar contra os mil absurdos que se foram sucedendo e cobriram a educação de cinza vulcânica muito cinzenta. Não quis ser titular num processo profundamente injusto, mesmo deixando de progredir na carreira, e o tempo deu-me razão. Não entreguei objectivos individuais (juntamente com apenas cerca de uma dúzia de colegas, depois de muito mais de 100 numa reunião colectiva terem afirmado que fariam o mesmo), fui intimada, avisada de que não seria avaliada... fiz a auto-avaliação nos meus termos...  e o tempo deu-me razão. Nesse ano mereci excelente num mestrado que envolveu acção em sala de aula, alunos, pais  e outros professores (o pior horário da minha vida leccionando todas as disciplinas do 2.º Ciclo do 4.ºG nos dois anos), e "bom" na escola que assim procedeu com os rebeldes, "de acordo com orientações superiores".
Não lhe perdoo, à MLR, o ambiente pesado, as discussões constantes, a promiscuidade de uma avaliação sem pés nem cabeça que colocou muitas vezes os menos competentes a avaliar os mais competentes. Não lhe perdoo a embrulhada nada séria de papel em que transformou as escolas sob a capa da seriedade da avaliação. Não consigo perdoar nem o desencanto nem a tristeza.

Depois dela aconteceu assim uma outra coisa. A ausência. A invisibilidade. O mesmo nada, mas agora com voz doce a comando de outras vozes. A bem dizer foi como se tivesse deixado de existir um ministério, absorvido por um qualquer conselho de gentes de intenções duvidosas...
Não lhe perdoo não ter conseguido recuperar a minha fé, a minha crença, a minha admiração pela "autoridade". Não é que precise... já que não necessito de cenoura para fazer o que é certo. Mas a verdade é que gosto de admirar quem me tutela, ou pelo menos reconhecer-lhe alguma competência específica e transversal... Não foi o caso.
Passou, como a outra.
Durante o ano ora era assim, ora era assado. Como aconteceu com a outra. Chegámos ao final do ano lectivo sem saber algumas coisas necessárias. Está bem, percebe-se a necessidade de tempo imposta pela mudança política. Mas a escola tem prazos para cumprir. Ontem o véu levantou-se um pouco.
Ainda estou sem palavras (ando lenta nos meus tempos de reacção), embora siga com atenção o que acontece e os pensamentos de outros, sob vários pontos de vista, sobre os efeitos e consequências. Darei tempo ao tempo, sim. Que eu sei que vivemos momentos excepcionais com timings apertados. E não me apressarei na análise.

Há tempos, sim, fiz outras análises a outros propósitos e por conta de certas ideias e textos partilhados como dogmas e avisei que os resultados piorariam... Os meus têm vindo a melhorar e este ano ultrapassaram todas as expectativas, enquanto a média da escola desceu abaixo da média nacional. E melhoraram, penso eu, porque a par do meu esforço e do das crianças e famílias, eu não flutuo ao sabor de modas incertas nem me distraio com o acessório dos formulários em papel: sei o que quero, defino prioridades, não cedo à chantagem da avaliação para não prejudicar os alunos com a minha falta de tempo, embora prejudicando-me a mim, e procuro adaptar-me ao mundo e às crianças que vou recebendo, ajustando as estratégias e procurando crescer enquanto professora... (gestos que nunca me permitirão obter boas avaliações neste sistema burocrático... :). Começarei no próximo ano lectivo por desobedecer a uma directiva aprovada pelo Conselho Pedagógico no final deste ano: todas as disciplinas têm de fazer um teste igual pelo menos uma vez por período. Ora como eu não ando a reboque do manual... e as minhas crianças são reais... o mais certo é já ter trabalhado umas coisas e não ter trabalhado outras. Os alunos não são carneiros, nem eu sou pastora. Já percebemos bem o valor dos (treinos para os) testes intermédios nos resultados... Nunca fui rebelde por natureza... Chamam-me madre Teresa... da bicharada e do resto... Mas a paciência anda esgotada para o que não faz sentido.

Acabei de escutar que a mobilidade será reduzida. Nesta altura era suposto as escolas saberem com que professores contam. Nós sabermos em que projectos estaremos envolvidos. Não havendo tempo para avaliar correctamente todos os projectos que mantêm professores em mobilidade fora das escolas em regime total ou parcial, corre-se o natural risco de acabar com tudo, tenha ou não impacto nas escolas. Tenha ou não tenha valor. Nada de novo.

Acabo o ano já a preparar o próximo, que não sei como será.
Mas sei que, no ano que passou, tocámos muitos professores e através deles muitos meninos... Construímos a semente de uma comunidade de educadores, fizemos formação pelo país fora.
Se voltaremos a ter oportunidade de aprofundar um projecto que ainda agora nasceu?
Não sabemos... Aguardaremos serenamente as decisões, como sempre.
Sabendo, como sempre, que neste país tudo é asssim mesmo. Hoje uma coisa, amanhã outra. Hoje Área de Projecto, amanhã já não. Hoje isto, amanhã aquilo.
Entrego-me sempre como se fosse verdade e perene tudo aquilo a que me entrego... Combato a descrença com gestos precisos e locais (pensando globalmente) como se não houvesse amanhã. Sei que o hoje, neste país, é a única coisa que vale. Os amanhãs são sempre incertos. A minha indignação, a minha revolução, a minha democracia já é executada (agora e não depois) sob a forma de acção ao serviço dos mais pequenos, para que um dia o mundo possa mudar e ser bem melhor.

Mas, mesmo sabendo que o mundo é composto de mudança,  o que não perdoo é este pedacinho de mim que me roubam em cada ano, a incerteza, a nenhuma prospectiva estratégica, esta falta de horizonte que nos faz caminhar como a Alice caminha no dizer do gato: se não sabemos para onde queremos ir não faz muita diferença o caminho que tomamos.
Vamos andando...
E eu gostava de pelo menos poder dizer, rodeada de mais gente: é para ali que vamos.

Assim, sobra-me apenas a consciência solitária, a convicção, os valores, a credibilidade junto de alunos, pais e (alguns) pares,  para dizer: eu quero chegar ali e levar comigo os meus alunos (suprema razão para nunca baixar os braços).

26 comentários:

armanda disse...

Excelente post! Continua a caminhar assim que esse é o caminho certo. Um grande abraço solidário.

3za disse...

Obrigada, Armanda... Que a consciência seja sempre a nossa melhor conselheira... Mas às vezes sinto-me.. como dizer... órfã? Abraço grande para ti...

Herr Macintosh disse...

Miga,

já sabes que, para mim, tens sempre valor (e tenho saudades das nossas maluqueiras na Luísa Todi - posso requisitar-te? É que tenho mais umas ideias malucas/estrambólicas/mirabolantes :-) ).

José disse...

Excelente! Infelizmente, não te conheço pessoalmente.. MAS não me parece que o "não sabemos para onde queremos ir, não faz muita diferença o caminho que tomamos" se aplique a ti. A "envolvente" é essa, SIM.. o que nos faz sentir muitas vezes "sozinhos"..
Obrigado pelo teu empenho e pelos resultados que tens partilhado! Umas boas férias.. algum tempo.. e tudo ficará mais claro..

3za disse...

Olá Jakim... se soubesses as saudades dos nossos nónios, oficinas e afins...
José... obrigada pelas tuas palavras... Muitas vezes foi aqui que vim encontrar o apoio que me faltava noutros locais... Chamo-lhe a minha verdadeira e escolhida sala de professores e muitos dos contactos nascidos aqui no virtual tornaram-se abraços reais e ganhei amigos para a vida! :)) quem sabe.................

IC disse...

Querida Teresa:
Excelente, excelente escrito. Mas sinto-lhe a tristeza, e partilho-a. Também a sinto em mim ao olhar para trás, naquela dedicação e batalha pela verdadeira Educação, pelos meninos e pelos jovens adolescentes. Já não os tenho nem conseguiria ter pela perda de resistência física da inevitável PDI. Mas tu tens uma resistência a dobrar.
Espantosamente, tenho ouvido na TV "personagens" parafraseando hipocritamente o poema de Brecht ... mas não me importei porque.... agora.... mas já é tarde. Claro que não vem a propósito de ti, o que vem a propósito é Brecht, no outro poema: ...... mas os que lutam toda a vida são os imprescindíveis. Se te retirarem a missão do Scratch, já deixaste muiiiiiitas sementes, e, estejas onde estiveres, sei que lutarás sempre pelos meninos e continuarás sempre a fazê-los crescer e voar. E muitos dos que te ouvem ou lêem serão contagiados por ti para fazerem melhor e melhor pelos meninos todos que lhes passarão pelas mãos.
Obrigada, querida amiga!
Repousa nas férias! Tu és dos Imprescindíveis na grande Missão da Educação(isto não é nenhum mimo, é uma Verdade!)
Mil bjinhos

Eduardo Martinho disse...

Parafraseando Séneca, dir-te-ei: Como sabes para onde vais, os ventos ser-te-ão sempre favoráveis!
Um (comovido) beijinho

3za disse...

Querida Isabel... Há quanto tempo foi que nos descobrimos aqui nos blogues para passarmos depois a companheiras de aventuras com abraços e beijinhos reais...
Sei que dizes o que pensas e sentes :)) e tens razão no facto de, esteja eu onde estiver, adivinhares que terei sempre o coração na missão dos meninos... seja directamente, seja através da motivação dos professores... aqui ou junto deles... O futuro não me aflige nesse sentido... Farei e estarei onde for preciso. Tu sabes... é só aquela sensação de que nos roubaram já tanto que é preciso realmente ser resistente ao limite para que esses meninos a que chamo meus possam ter as melhores experiências possíveis enquanto estão à minha guarda... :)
Bem hajas pelos teus carinhos e palavras... Vocês são também a minha força, o meu apoio, os loucos que, como eu, acreditam que há sempre um caminho, há sempre um buraquinho na rede por onde é possível escapar e fazer melhor...
Imensos beijinhos para ti :) e muito obrigada!

3za disse...

Paizão... eu sei... eu sei... e tu também sabes... :)) Beijinho

Amélia disse...

Estou aposentada vai para uns 8 anos...tenho-a seguido e visto o seu amor pelo ofício que foi também a minha paixão.Entendo este seu desabafo, bem fundamentado.
Trabalhamos e Teresa continua a trabalhar para os meninos - a quem procuramos ajudar a crescer em sabedoria e como homens.Somos escultores de almas - o estatuário de que falava o Padre António Vieira.

3za disse...

Tão verdade Amélia... tão verdade... Obrigada pela presença e carinho das palavras...

J. disse...

Uma boa reflexão, como sempre...

Beijinho!

3za disse...

Obrigada JT! Sempre... Foi um ano excelente na vossa companhia/equipa. veremos o que o futuro diz.

Ruy Ventura disse...

Um abraço muito forte! Tu conheces as razões que me levam a registá-lo aqui.

3za disse...

Sim, Rui. Sei bem. Outro para ti. Estranhos tempos estes.......

João P. disse...

O texto é lindo Teresa (tomara que não houvesse razões para o teres escrito)

Beijo

João P.

3za disse...

Obrigada, JP! Beijo e boas férias!

Anónimo disse...

E eu que não sou professora,também senti que a educação não andava bem.
Ainda houve quem lutasse,contra a desordem que existia.Não conheça a Dra Teresa mas merece parabens.

3za disse...

Eu só posso agradecer o carinho do comentário... e o apoio que transparece nele. Obrigada!

Fátima Pais disse...

amiga querida, a Luísa Todi, também já não é a mesma..já não chove, não faz frio...mas a alma fugiu-lhe.. Acho por causa de muitas das coisas que descreves. Mas continuo a sentir a tua falta aqui. Como excelente profissional, com admirável ser humano e como magnífica amiga que és. A mim também me tiraram quase tudo, a vontade de acordar de manhã e correr para a escola, que adorava, a certeza do caminho do dia seguinte, do ano seguinte..a vontade de participar em tudo.. beijos

Fátima Pais disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marilia Soares disse...

.... Não quis ser titular num processo profundamente injusto, mesmo deixando de progredir na carreira, e o tempo deu-me razão ....

AINDA EXISTE GENTE COM DIGNIDADE.

José António disse...

Parabéns e sinto-me muito nas tuas palavras de passar pelo mesmo.... realmente tenho pena de trabalharmos sem termos um "patrão" que saiba o que quer.

3za disse...

Obrigada a todos... O melhor que podemos fazer sempre é proteger os meninos em tudo o que esteja ao nosso alcance... Podiam ser os nossos filhos, é nisso que penso sempre. Abraço

Alice Frade disse...

Olá Teresa!
Excelente reflexão! Conheci-te este ano e senti desde logo a excelente "pessoa" que és.

Um beijinho alentejano:) !

3za disse...

Obrigada, Alice! O meu sentimento por ti é igual!
Beijinhos