quarta-feira, março 21, 2012

Da poesia, da ternura, dos bolsos rasgados e das sementes


Apeteceu-me dizer aqui da breve manhã.
Celebração do dia da poesia numa escolinha do 1.º ciclo de Setúbal, pertinho da minha antiga escolinha Luísa Todi (mesmo agrupamento).
No programa um poema antigo revisitado vezes sem conta por muitos meninos em apresentações deste tipo: "O bibe". Desta vez pela voz de uma turma e dois projetos Scratch de outra.

A turma do Scratch já eu conheço bem...

...mas fui conhecer muitos outros meninos que contavam com a presença da "escritora" e a acharam assim normal como as pessoas são. "Até és professora e tudo!"... "Tu é que escreveste este poema que nós vamos dizer?"... "Porque é que tens essa coisa nos dentes?"... "O que é isso?"... "Não cai?"... "Oh pá chama-se aparelho e eu também preciso!"...

Durante a sessão, a menina autista (que encontrei pela segunda vez) da turma Scratch - 2.º ano sentiu que estaria segura nos meus braços e assistiu às apresentações ao meu colo. Estendi-lhe as mãos, ela olhou para elas e para os meus olhos e aceitou(-me). Dançámos sentadas enquanto Fernando Pessoa e Zeca Afonso desfilaram à nossa frente, em apresentações com música feitas pelos meninos mais crescidos. "Fui bailar... no meu batel...". As mãos dela entrelaçadas nas minhas, as palmas em cada final, o seu sorriso fascinado com tudo o que se passava à sua volta foram parte muito especial da manhã.  A poesia e a música abrem estradas em todos os corações e a diferença nesses momentos únicos é apenas uma palavra sem som.

Terminou-se a sessão com os projetos Scratch apresentados pelos alunos da professora Carmen e lá fui eu para o microfone desafiá-los a eles e aos professores para experimentarem. Queriam saber como lá chegar, como fazer o que os meninos da Carmen já fazem. No final um professor do Ensino Especial revelou interesse em aprofundar a questão e já ficaram trocas feitas para que todos se possam deixar contaminar e as sementes possam dar flor.

Então, por que razão esta espécie de nostalgia quase triste que acompanha o bom aroma do dia? Só consigo ouvir hoje na minha cabeça os muitos professores que me dizem (sobretudo nos ciclos de ensino a seguir ao 1.º) que não se pode fazer quase nada enquanto treinam alunos para testes intermédios e exames. E depois escutar os professores das universidades a dizerem-me da pobreza de conhecimento que cresce, cresce, também acompanhada de "questões disciplinares", como se o secundário se prolongasse por lá sem fronteira. O que andamos a fazer? Que coisa é esta a que nos atrevemos a chamar educação? Como é possível persistir no erro, sem sequer aceitar que podem existir outros caminhos? Perceber que não temos alternativa senão mudar?

Estou num daqueles dias de bibe rasgado, desesperadamente em busca de qualquer doce no bolso que já não tenho nem há. E eis que recordo os meninos desta manhã e as palavras que escrevi há anos: "onde vou buscar surpresas, onde vou buscar um sonho quando deles precisar?"

Eu sei. Afinal sei.
Fui buscar isso tudo a esta manhã mágica, e a tantas coisas boas a acontecer em muitas salas de aula. Foi a isso que me agarrei para espantar o Adamastor que às vezes aparece para nos escurecer a esperança.
Crescer não é fácil. Nunca foi.
Mas eu sei, sei tão bem afinal onde mora a fonte dos sonhos e surpresas de que preciso em alguns dias cinzentos. O segredo são as pessoas, certas pessoas.
Tu, tu... também tu. Vocês.
Essa luz.

Tiro do bolso um botão
uma moeda, um carrinho
um papel de rebuçado
uma flor velhinha e seca
um segredo amarrotado
um berlinde e um pauzinho
um fio azul, um pião.
Nunca o bolso está vazio
quando nele meto a mão!

Quando tiver de crescer
e o meu bibe se rasgar
onde vou buscar surpresas
onde vou buscar um sonho
quando deles precisar?

2 comentários:

CCF disse...

Sempre tudo tão bonito...
Há muito que não vinha...pelos motivos que aqui também são analisados, às vezes perdemos o mais importante e com isso nos perdemos também.
Um beijinho
~CC~

3za disse...

Beijinho grande CC... eu sei, eu sei...
e obrigada pelo miminho :)