Mostrar mensagens com a etiqueta poetas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poetas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, abril 15, 2010

Jaime Salazar Sampaio - saudade

Jaime Salazar Sampaio - O viajante imóvel, 1979 (Plátano Editora)

O primeiro poeta que conheci... O primeiro livro de poesia com autógrafo do autor.

Aconteceu pela mão da Professora de Língua Portuguesa (antigo 6º/7º anos do liceu, actuais 10º/11º) que era assim uma professora muito especial (actual Presidente da Sociedade de Língua Portuguesa).
Promoveu um encontro/tertúlia na sua casa entre Jaime Salazar Sampaio e os alunos mais interessados pela escrita e pela poesia.

O Jaime, recordo-me, era afável e tocou-nos com a sua centelha. A mim, pelo menos, deixou marcas e nunca o esqueci. Nunca o esquecerei. Há pessoas assim: passam pelo mundo, passam por nós e mesmo quando parece que partem, ficam... ficam... ficam.... sempre.
Para sempre.








quinta-feira, dezembro 31, 2009

Recomeçar... (Continuar?)

Recomeça...

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

quarta-feira, julho 15, 2009

Apeteceu-me... não (ser eu a) escrever

Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 66




Quase de nada místico

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.

Ana Luísa Amaral
Anos 90 e agora
Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
edições quasi


http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/poetas.htm

segunda-feira, março 23, 2009

José Fanha: Poeta, Blogue, Centro de Recursos

Na sequência da entrada anterior... e porque gosto de conhecer os locais onde vou, parti em busca de José Fanha, que dá nome ao Centro de Recursos da Escola EB 2,3 da Venda do Pinheiro.

Acabei por descobrir o Poeta no seu blogue... e agora vou aninhá-lo ali nas Teias de palavra e fantasia de que mais gosto.

Há fios que se cruzam assim, por tudo e por nada.
Coisas simples que as tecnologias fazem acontecer como pós de perlimpimpim das histórias das fadas.
Quem precisa de varinha de condão?
(Eu não!)

Gostei muito desta reflexão que por lá encontrei...

OS VOSSOS FILHOS NÃO SÃO TOSTÕES

(A poesia não nos rouba nem a atenção ao mundo, nem a lucidez: amplia-as.)

domingo, fevereiro 22, 2009

Doces penas...

Quando um poema (cantado) de alguém começa a subir pelo corpo acima, vem um desejo súbito de descobrir o quem e o quando escondidos na melodia de letras.
Escutava eu a
Carminho, enquanto vou corrigindo uns muitos testes e trabalhos que trouxe de presente para o Carnaval (época de que nunca gostei e aprecio apenas como um tempo onde posso pôr trabalho e ideias em ordem), quando as penas na voz dela me motivaram uma mui curta interrupção com navegação breve até aqui (bendita 'net que nos viaja com barco fácil nos súbitos desejos):

As penas

Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto...
Sabe-o Deus e sei-o eu

(Fernando Caldeira)


Desconhecendo (confesso) o nome que se me apresentava a assinar as penas, avancei na viagem até aqui:

Fernando Caldeira: Acerca de pés, poesia tão imbrincada, tão fagueira, tão dengue, com tantos suspiros e aromas e beijos e quindins, ninguém a urdiu como este poeta. Fazer de um composto do tarso, metatarso, falanges, músculos, nervos e cartilagens um tecido de frases tão ternas e lânguidas, isso, para mim, tem mais engenho e poesia, mais ideal e estética, mais perrexil e atavios, que os dois pés reais da dona do pé cantado.
Esta poesia em Inglaterra seria inverosímil. Ninguém diz em Inglaterra pé grande: evitam-se cautelosamente os pleonasmos num pais onde o tempo é dinheiro e as palavras de mais são desperdícios. Tenho a colecção dos poetas britânicos de Samuel Johnson. São sessenta e oito tornos. Pois não há poeta, um só, que cante um pé de inglesa, nem de ninguém.
O próprio Byron, posto que desdenhoso da sua pátria, respeitava por tanta maneira os pés das senhoras suas patrícias que, nas poesias enviadas às suas amadas italianas, ou lhes não falava nos pés, ou, se a rima o obrigava, abstinha-se de lhes chamar pequenos. Aqui tenho um exemplo à mão. É uma poesia à condessa Guiccioli, que devia ter um pé benemérito das carícias de Fernando Caldeira. Diz Byron, com os olhos postos no rio Pó: «A corrente que meus olhos seguem irá lamber as muralhas da sua terra natal e murmurar-lhe aos pés.»
The current y behold will sweep beneath
Her native walls, and murmur at her feet.
Feet somente. Um poeta qualquer, que não fosse insular e um pouco coxo, não deixaria de adjectivar aqueles pés. Parece que os meteu na estância por causa da rima eath.

Ainda bem que o meu prezado Fernando Caldeira floresce numa região em que, se por capricho quiser cantar um pé grande, tem de passar com a fantasia o canal da Mancha.

Camilo Castelo Branco



Eu queria parar, mas não consegui, não agora à beirinha dele, sentindo que a urgência não estava concluída a modos de me alimentar o inexplicável apetite. Só mais um minuto disse eu de mim para mim, prometo que a seguir, já já, retomo o trabalho e o caminho do dever e das coisas úteis...

E continuei...

... até encontrar aqui as palavras certas que saciaram o possível e escreveram fim na busca:

Fases da vida

Abri meus olhos ao raiar da aurora
e parti. Veio o sol, e então, segui-a
a sombra, que eu julgava guiadora,
a minha própria sombra fugidia.

E foi subindo o sol; Ao meio dia,
Escondeu-se-me aos pés a sombra; agora,
se volvo o olhar onde passei outrora,
vejo-a seguir-me, a sombra que eu seguia.

A gente é o sol de um dia; sobe, avança,
passa o zénite e vai na imensidade
apagar-se do mar, onde se lança.

E a vida é a própria sombra; meia idade,
somos nós que a seguimos, e é a Esperança;
depois segue-nos ela: é a Saudade.

Fernando Afonso Geraldes Caldeira (n. em Águeda a 7 Nov. 1841; m. em Lisboa a 2 de Abril 1894)

in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa - Edições Unicepe 2004)



Regresso às coisas próprias e práticas da vida, tão contidas num tempo que nos escapa entre os dedos. Só a poesia me esquece desse tempo contado e me leva de mão dada pelo ar a fingir que nada do que é preciso é necessário e que temos todo o tempo do mundo para um doce fazer-nada, um doce saborear-de-coisa-alguma nos caminhos e colo sem corpo das palavras onde gostamos de nos embalar.

Estou sedenta do tempo sem ponteiros que é o tempo da poesia.

(Se gastei mais algum tempo para fazer e partilhar esta viagem aqui, foi a solidariedade que me moveu na esperança de poupar esse exacto tempo a quem tenha sentido, ou venha a sentir, a mesma vontade que eu senti e ainda tenha menos tempo do que o tempo que eu não tenho).