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terça-feira, novembro 20, 2007

Palavras para quê?

Manhã passada aqui (fotos). Papéis moles de tanta humidade. Vamos adoecendo, claro. Como não? E aqui nos tentamos curar, tossindo em todas as direcções nas convalescenças apressadas (que não chegaram a ter interrupção de cama).
É preciso tê-los enfiados em qualquer lado. Não importa onde, nem como.
E fabricar sucesso. Em série. Com cheiro a mofo.
Arranco um sorriso não sei de onde (aliás, sei, são as estrelas dos olhos deles que o fabricam): meninos, vamos começar?
À tarde plano de Matemática. Pensar em combater o insucesso. Ironias. Uma casinha quente ajudava. Isto não vai lá só com pedagogias. Depois, em seguida, mais um Conselho de Turma em sala também fria... a acabar previsivelmente tarde. (Ah! Sou secretária da dita... mais tarde ainda do que tarde...)
Das 8 às mais que 8. Já não chove só do lado de fora. Há uma chuvinha aqui por dentro a marcar o compasso dos dias. Tento sacudi-la. Às vezes não é fácil.
Amanhã às 8, tudo recomeça. Na mesma sala fria e molhada. Um ciclo vicioso. Viciado. Repito: com cheiro a mofo.
Salvam-se os dias apenas por causa deles. Mas mesmo eles se desalentam e desconcentram e se entristecem com os locais que lhes destinam (em casa é que se está bem, no quentinho e com bons equipamentos). E isso vai-se reflectindo no interesse, no ânimo, até nos resultados. Sabem que não merecem. Que têm direito a mais. Este é o seu tempo de viver a escola. Esta espécie de escola às pressas, meio apodrecida (não apenas por causa da humidade). Tentamos ser assim uma espécie de sol para os aquecer, para não os perder. Porque sabemos, repito, que este é o seu (mau)tempo de viver a escola.
E o tempo não volta atrás...
(Que preservem, apesar de tudo, algumas boas humanas recordações!)



segunda-feira, novembro 19, 2007

Pára tudo! Sim, vou falar de futebol... e de outras coisinhas.

Mais vale jogar mal e ganhar do que jogar bem e perder.

Jogámos mal, mas ganhámos, esse era o objectivo.

Algumas das pérolas que ouvi no fim-de-semana a propósito sabem bem do quê.

A vida centrada nos resultados.
Parece ser o modelo a seguir.
(Felizmente o comentador desportivo, logo depois, referiu-se às expressões como sendo um enorme disparate. E acrescentou que o objectivo é jogar bem. Não é ganhar por acaso mesmo tendo jogado mal. Haja alguma inteligência e sensatez. )

Hummm... a propósito. É possível não ir à escola e depois provar que se conseguem meter uns golos numas perguntas. Já há regulamentação para isso. Aliás, já o John Holt dizia, e eu já devo ter dito aqui: o bom aluno é aquele que só esquece a matéria que decorou depois de fazer o teste.

Ahhh! É verdade! Mesmo a propósito. Acabámos de descobrir na escola algo magnífico. Os ATLs que a circundam fazem arquivo sistematizado de todas as fichas de avaliação que os professores utilizam na escola e colocam os seus clientes a realizá-las como treino intensivo de chuto à baliza. O que está a acontecer? Ora bem, eu explico. O tempo da componente lectiva não dá nem para ver testes e trabalhos, quanto mais inventar testes novos todos os anos para variadíssimas disciplinas (no meu caso, quatro). Portanto, por norma, os professores têm um conjunto de instrumentos disponíveis e vão optando pela seleccção deste ou daquele, consoante (de vez em quando lá conseguimos uma pequena inovação - momentos cada vez mais raros)...
Agora, o mais comum é ouvir os alunos nas aulas, quando o teste é colocado na mesa (perdoai-lhes , Senhor, que eles são pequeninos e ainda dizem em voz alta estas coisas, os mais crescidos calam-se que nem espertos ratitos), olha! Este é o teste que fiz no ATL. E fiz várias vezes até saber!
(Trabalhamos para os ATLs de graça! Perfeito.)

Como vamos continuar sem tempo para fazer "testes novos todos os anos"... será que o sucesso escolar vai aumentar por conta dos ÁTÊÉLES? Sim... que se os testes são mais importantes que as aulas (a lei atesta-o, e não pode haver descriminação dentro de uma turma), então isto vai transformar-se num oásis aqui por estes lados. Mesmo que se jogue mal, vão ser marcados imensos golos! Uma felicidade! Eu cá subsidiava-os a fundo perdido!

A propósito, achava eu na minha infinita ignorância que, depois desta coisa da escola a tempo inteiro e da família a tempo reduzido, os ATLs teriam menos mercado. Lembro-me até de ter ouvido responsáveis queixar-se. Mas, pasmemo-nos (eu pasmo-me, tu pasmas-te ele pasma-se... e por aí fora), que afinal o paradigma é outro: escola a tempo quase inteiro, ATL a tempo que resta do tempo quase inteiro e família, em alguns casos, a tempo praticamente nenhum (noites?).

Ahhhhh! E os professores com filhos são bons clientes desses ATLs... passam a maior parte do seu tempo na escola a tempo mais que inteiro - conseguido à sua custa, de sol a sol com dezenas de reuniões a desoras, que terminam muito para além das 8 da noite...
(Ou achavam que os professores não eram também encarregados da educação dos seus filhotes e culpados de absentismo (abzentismo?) às reuniões de pais nas escolas, desleixo no seu acompanhamento e ausência às festinhas dos seus rebentos?)

Veio-me à lembrança um malogrado episódio, nem sei se já o contei aqui, mas se sim, repito (é o que dá ser professor, estou a caminho de alguma debilidade mental pelo stress a que sou submetida e tenho uma certa desculpa), sobre uma professora da 2,3 Luísa Todi que tinha o seu bebé de poucos meses em risco de vida no Hospital de Setúbal. Ao tentarmos explicar aos pais a razão das suas faltas e o porquê dos atrasos do Ministério da Educação na sua substituição, já sem argumentos, um pai ainda disse em jeito de ponto final: as professoras n'áveram de ter filhos!

Está tudo dito.

Quanto mais gosto de estar com os meus meninos, mais me irrita o estado da educação da nação. Eles merecem realmente melhor. E é preciso amá-los, aos meninos, para perceber isso. Talvez seja o que está em falta. Eles não são números e resultados. Têm uma face bem real.

A minha indignação é directamente proporcional ao amor pela minha profissão. Ao amor por eles.

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sexta-feira, novembro 16, 2007

Permitam-me mais um desabafozito...

Pensava eu que teria ficado na saudosa Luísa Todi aquela coisa de dar aulas em salas geladas.
A dor de garganta fortíssima com que acordei ontem (e hoje piorada) prova que não. Ainda assim aguentarei o suplício hoje de mais umas salas preservadoras da condição da carne, sem qualquer disposição para a missão. Adiante, que vem aí o fim-de-semana e o trabalho acumulado é tanto que nem sei como lhe dar a volta... mas pelo menos por aqui não tenho frio.

Ainda não chegou o Inverno e já nós e as crianças lutamos para sobreviver a manhãs passadas dentro de verdadeiros congeladores, neste caso os "barracões" do jardim, outras salas e a sala de Ciências que é mesmo apelidada o congelador da escola.

Pensava eu que já me havia habituado à congelação. Mas não.
É uma coisa muito magnífica trabalhar nestas condições, acreditem.

E só me ocorre a tutela muito bem instalada nos seus quentinhos gabinetes, enquanto aqui ponho os alunos roxos aos saltos dentro de uma aula de Ciências, porque me faz uma confusão imensa vê-los a tremer de casaco vestido.

Como uma vez disse um "engenheiro" da DREL que nos visitou por conta dumas obras necessárias e nunca mais feitas: era bom trabalhar assim num ambiente adverso, que boas condições a mais para trabalhar não faziam bem... Ele deveria querer referir-se ao provérbio na adversidade se tempera o carácter. Mas, ao fim de cerca de vinte e tal anos de adversidades, tenho o carácter mais que temperado e os meus meninos mereciam muito mais do que aquilo que lhe é oferecido. Posso temperar-lhes o carácter de outros modos com exigência, por exemplo. Poderem concentrar-se no que fazem sem me dizerem de cinco em cinco minutos oh professora estou cheio de frio já seria bastante bom.

Quem sabe podíamos trocar com o gabinete do senhor engenheiro. Melhor do que falar do que não sabem, era experimentar um pouco da dose de veneno que nos é impingida a todos, todos os dias. Aprender como, assim?
Mais uma vez chocada... e nem posso dizer que o choque hoje seja tecnológico... hoje é mesmo uma questão de choque térmico. Farta de dar aulas de luvas e cachecol.

Pronto. Já está. Tinha de ser dito.
É que hoje custa-me muito a engolir e, portanto, recuso-me a deglutir qualquer coisa que não seja um chá de gengibre e limão com mel, muito quentinho, para me preparar para um dia que não será fácil.
Este sapo da educação está cada vez mais gordo...

Lembrei-me do livro "O triunfo dos porcos": todos os animais são iguais... mas alguns animais são mais iguais do que outros.
(E tomar conta dos destinos do país é coisa tão importante que merece boas condições para o exercício das funções... ok. Já percebi. Desculpem lá o desabafozito.)

segunda-feira, outubro 29, 2007

Profunda indignação

No meio da vergonha, da raiva, por partilhar o género humano com certas pessoas (este é mais um exemplo), continuo sem perceber como foi possível ninguém ter retirado o animal da exposição. Um gesto aparentemente tão simples. Que seres humanos conseguem assistir impávidos a tanta crueldade?
Quero crer que nunca teria sido possível avançar com tal afronta e indignidade em Portugal. Sei que nem todos partilham esta minha comunhão com os animais, sobretudo os mais desprotegidos (já conto três em casa), mas não olhem para o lado, por favor. Dói muito. Dói-me muito ver as imagens. Como me dói ver muitas outras. Sim, não podemos salvar o mundo todo. Mas evitar a dor não é solução. Fingir que este mundo é cor-de-rosa também não é resposta.

Partilho. E já assinei a petição.
http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html


Cão morre de fome em exposição

Artista da Costa Rica alvo de contestação mundial Um artista da Costa Rica pôs um cão vadio em exposição na Nicarágua e deixou-o morrer à fome e à sede. Disse que estava a pôr à prova a hipocrisia das pessoas, mas está a ser alvo de forte contestação.

Luís Costa RibasJornalista