sábado, junho 09, 2007

Leitora



Este foi um deles...

E hoje, neste sábado sereno, desfolho-o no intervalo dos terrenos afazeres.

Visto-me de jardineira... visto-me de dona de casa... visto-me de professora.... e adoro despir-me a correr em segredo para me vestir de... leitora.


A LEITORA


A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.


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António Ramos Rosa
Antologia Poética
Selecção, prefácio e bibliografia de
Ana Paula Coutinho Mendes
Publicações D. Quixote

2 comentários:

  1. Olá, Teresa
    Belo poema!
    Adorei a imagem: vestir-se de leitora!
    Ando sem tempo para escrever, mas para ler sempre tenho tempo.Por isso estou aqui.
    Abraços.

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  2. Anónimo11:20 a.m.

    Abraços enormes Fátima! Ler ler ler... pode não hver tempo para mais... para isso temos de encontrar.....

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